A inflamação é uma resposta fisiológica natural e fundamental do organismo face a uma agressão como uma infeção ou uma lesão física. No entanto, caso esse mecanismo deixe de ser transitório e auto-limitado e passe a uma condição crónica, pode aumentar o risco de doenças crónicas . Por outro lado, o risco de doenças cardiometabólicas está fortemente associado a uma alimentação pouco saudável (ingestão elevada de gorduras saturadas, hidratos de carbono refinados e bebidas açucaradas e uma ingestão baixa de cereais integrais, frutos e vegetais), o que pode contribuir para uma inflamação pós-prandial (após uma refeição) elevada .

 

Tanto a hiperglicemia como a hiperlipidemia, os quais são fatores de risco independentes de doença cardiovascular, aumentam a inflamação pós-prandial, a qual está também associada a um risco superior de doença cardiovascular . Após uma refeição rica em gorduras saturadas e hidratos de carbono refinados há um aumento excessivo de glicose e ácidos gordos livres em circulação. Ao serem metabolizados pelas células, ultrapassam a capacidade das mitocôndrias de produzir energia, o que leva a stress oxidativo, o qual ativa vias inflamatórias .

A inflamação pós-prandial contribui também para um aumento da inflamação crónica de baixo-grau . Nesse sentido, a identificação de estratégias nutricionais que possam contribuir para reduzir a inflamação pós-prandial poderá ser importante na prevenção de doenças cardiometabólicas.

Embora existam vários estudos que procurem identificar a relação entre diferentes alimentos e a inflamação pós-prandial (após uma refeição), os resultados desses estudos são heterogéneos, o que pode ser explicado pelos marcadores tradicionalmente utilizados para avaliar a inflamação (CRP, IL-6, IL-8, TNF-α, etc.), uma vez que estes têm uma grande variabilidade. Um dos marcadores mais recentes que aparenta ser muito mais fiável enquanto marcador inflamatório pós-prandial é a acetilação de glicoproteína (GlycA). Antes deste marcador ser conhecido, nenhum outro era responsivo de forma consistente aos alimentos, estável entre indivíduos e clinicamente relevante . Além de ser um marcador mais fiável de inflamação sistémica, níveis elevados de GlycA parecem estar relacionados com um risco superior de mortalidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, fígado gordo e alguns cancros .

Com base no marcador GlycA, um estudo recente de grandes dimensões avaliou a inflamação pós-prandial, procurando identificar os contributos dos níveis de açúcar ou de gordura no sangue para a inflamação sistémica e consequentemente para o risco de doenças crónicas. Liderado pela investigadora Sarah Berry, o estudo PREDICT convidou 1.002 adultos saudáveis ​​que participam do programa de pesquisa PREDICT. Todos receberam duas refeições padronizadas para consumir, cada uma contendo quantidades precisas de gordura, hidratos de carbono, fibra e proteína: pequeno-almoço (um muffin e um milkshake) e merenda 4 horas depois (um muffin).

Os pesquisadores colheram amostras de sangue dos participantes antes da refeição matinal e em nove momentos ao longo do dia. Estes foram então analisados ​​para medir os níveis de gordura e açúcar no sangue, juntamente com os níveis de dois marcadores de inflamação, interleucina 6 (IL-6) e acetilação de glicoproteína (GlycA). Os pesquisadores também reuniram dados detalhados sobre a saúde dos participantes, incluindo informações sobre sua dieta típica, uma amostra fecal para análise da microbiota e exame de gordura corporal. Alguns resultados do estudo:

  • As alterações nas concentrações de GlycA e IL-6 foram altamente variáveis entre os participantes;
  • Ambos os picos na concentração de glucose e triglicéridos no sangue estiveram associados a um aumento de GlycA, no entanto, os níveis de triglicéridos tiveram uma relação mais forte com esse aumento.

O estudo sugere que embora tanto valores de glicose ou gordura no sangue após uma refeição estejam associados a níveis superiores de inflamação, a gordura no sangue parece ser um preditor mais robusto para a inflamação induzida pela alimentação do que a glicemia .

De acordo com os investigadores do estudo, algumas estratégias poderão ajudar a diminuir o impacto da inflamação após uma refeição:

  • Controlar as respostas prejudiciais à gordura no sangue, escolhendo alimentos integrais que são mais ricos em fibras e proteínas magras, aumentando a ingestão de gorduras ómega-3 saudáveis ​​de fontes como nozes e sementes ou peixe e reduzindo a gordura corporal geral;
  • Controlar as respostas prejudiciais ao açúcar no sangue escolhendo alimentos que contenham hidratos de carbono complexos e fibras, como grãos integrais, frutas e vegetais, e limitando alimentos processados ​​com açúcar e refrigerantes;
  • Reduzir a inflamação depois da ingestão escolhendo alimentos que são ricos em moléculas bioativas “anti-inflamatórias”, como polifenóis, encontrados em frutas e vegetais coloridos e outros alimentos de origem vegetal;
  • Conhecer a biologia individual e escolher alimentos com menor probabilidade de causar respostas prejudiciais à gordura ou açúcar no sangue após a ingestão.

A alimentação poderá ter um papel importante na regulação da inflamação crónica. Têm sido desenvolvidos vários instrumentos para medir o potencial inflamatório da dieta, tal como o Índice Inflamatório Alimentar (IIA). Uma meta-análise a 9 estudos prospetivos com 134067 participantes no total baseado no IIA chegou a resultados semelhantes. Os participantes com um IIA mais elevado (dieta mais inflamatória), tiveram:

  • Risco 22% superior de mortalidade total;
  • Risco 24% superior de mortalidade por doença cardiovascular;
  • Risco 28% superior de mortalidade por cancro;
  • Risco 32% superior de doença cardiovascular.

A meta-análise concluiu que dietas mais inflamatórias (com um IIA elevado) estão de forma independente associadas a um risco superior de mortalidade total, por doença cardiovascular, por cancro e de doença cardiovascular .

A relação entre a alimentação e o stress oxidativo também tem sido avaliada. Um desses instrumentos é o NEAC (capacidade antioxidante não enzimática), o qual estima o conteúdo total de antioxidantes de uma determinada dieta . Uma dieta inflamatória é geralmente caracterizada por um consumo elevado de hidratos de carbono refinados, carnes vermelhas e processadas e gordura saturada. Por outro lado, uma dieta antioxidantes é rica em vegetais, leguminosas, frutos e frutos secos. Alguns alimentos e componentes com potencial anti-inflamatório, de acordo com o IIA :

  • Açafrão-das-Índias;
  • Fibra;
  • Beta-caroteno;
  • Flavonóides;
  • Ómega-3;
  • Magnésio;
  • Vitaminas C, D, E;
  • Alho;
  • Cebola.

Os componentes mais inflamatórios são:

  • Gorduras saturadas;
  • Gorduras hidrogenadas;
  • Farinhas refinadas;
  • Açúcares adicionados.

Outro instrumento que permite estimar o potencial anti-inflamatório dos alimentos é o Índice de Dieta Anti-inflamatória (IDAI). O IDAI é um índice validado que inclui 20 alimentos ou grupos de alimentos . Alguns dos alimentos com potencial anti-inflamatório:

  • Frutos e vegetais (>6 porções/dia);
  • Leguminosas (>6 porções/semana);
  • Frutos secos (>2 porções/semana);
  • Pão integral (>2 porções/dia);
  • Chocolate (>1 porções/dia);
  • Fruta seca (>0,5 porções/dia);
  • Chá (>3 porções/dia);
  • Café (>2 porções/dia);
  • Infusão de ervas (>0,5 porções/dia);
  • Azeite e óleo de colza (>0 porções/dia);
  • Linhaça (>2 porções/semana).

Alimentos com potencial inflamatório:

  • Carne vermelha (<0,5 porções/dia);
  • Carne processada (<0,5 porções/dia);
  • Carne de órgãos (0 porções/dia);
  • Batatas fritas (0 porções/dia);
  • Refrigerantes (0 porções/dia).

Um estudo prospetivo que acompanhou 68273 participantes ao longo de 16 anos mostrou que aqueles que fizeram uma dieta mais anti-inflamatória tiveram um risco inferior de mortalidade. Para o estudo foi utilizado o índice de dieta anti-inflamatória (IDAI). Entre aqueles um IDAI mais elevado, foram observados os seguintes resultados:

  • Diminuição de 18% no risco de mortalidade total (31% no caso de fumadores);
  • Diminuição de 20% no risco de mortalidade por doença cardiovascular (36% no caso de fumadores);
  • Diminuição de 13% no risco de mortalidade por cancro (22% no caso de fumadores);
  • Não fumadores com um IDAI mais elevado viveram em média mais 4,6 anos do que fumadores com um IDAI baixo.

O estudo concluiu que uma dieta anti-inflamatória poderá diminuir o risco de mortalidade total, por doença cardiovascular e por cancro, além de prolongar o tempo de vida, especialmente entre fumadores .

Além disso, um estudo de caso controlo com 3419 casos e 4933 controlos sugere que uma dieta inflamatória poderá aumentar o risco de cancro colorretal. Alguns resultados do estudo:

  • Valores de IIA elevados (dieta inflamatória) estiveram associados a um risco 93% superior de cancro colorretal;
  • Valores de IIA elevados e valores de NEAC baixos estiveram associado a um risco 48% superior de cancro colorretal.

O estudo conclui que uma dieta inflamatória e baixa em antioxidantes poderá aumentar o risco de cancro colorretal .

Especiarias como o açafrão-das-Índias, gengibre ou canela, além de acrescentarem sabor aos alimentos, poderão também ter benefícios para a saúde devido à presença de vários compostos bioativos, muito deles com propriedades anti-inflamatórias. Acrescentar pelo menos 6g de especiarias a uma refeição rica em gordura saturada e hidratos de carbono refinados poderá atenuar os efeitos desta na inflamação pós-prandial em pessoas com excesso de peso, o que poderá diminuir o risco de doenças cardiovasculares ao diminuir a inflamação crónica de baixo-grau.

Uma dieta de base vegetal saudável, com frutos, vegetais, leguminosas, cereais integrais, frutos secos, sementes, complementada com gorduras insaturadas, especiarias, ervas aromáticas, chá, cacau e linhaça é naturalmente anti-inflamatória e antioxidante, reduzindo assim o risco de mortalidade e de doenças crónicas.

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