A hipertensão é um dos principais e mais comuns fatores de risco de morte em todo o mundo, afetando cerca de 1,4 mil milhões de pessoas, estando associada ao risco de doenças cardiovasculares, doenças renais e morte . Em Portugal, estima-se que cerca de 36% da população seja hipertensa, com os valores mais elevados observados no sexo masculino e no grupo etário dos 65 aos 64 anos .

A importância do estilo de vida na prevenção de hipertensão parece ser fundamental. Perder peso e fazer exercício são algumas das medidas importantes para controlar a hipertensão, no entanto uma dieta de base vegetal poderá ser ainda mais eficaz . Um dos primeiros estudos a sugerir uma associação entre uma dieta de base vegetal e um risco inferior de hipertensão foi publicado em 1930. Nesse estudo, monges alemães com dietas vegetarianas pareciam ter um risco inferior de pressão arterial elevada, comparativamente com aqueles que comiam carne .

Desde então vários outros estudos têm mostrado uma associação entre dietas de base vegetal e o risco de hipertensão. Uma recente meta-análise procurou saber se diferentes tipos de dietas de base vegetal, mesmo incluindo alguns produtos animais, poderão diminuir o risco de hipertensão . Na revisão foram incluídos 41 estudos clínicos com 8416 participantes nos quais foram analisados os efeitos de sete diferentes dietas de base vegetal: DASH, Mediterrânica, Vegetariana, Vegana, Nórdica, rica em frutos e vegetais e rica em fibra). Todas as dietas estiveram associadas a uma diminuição da pressão arterial:

  • DASH: -5,53 mmHg;
  • Vegetariana: -5,47 mmHg;
  • Nórdica: -4,47 mmHg;
  • Vegana: -1,30 mmHg;
  • Mediterrânica: -0,95 mmHg;
  • Rica em fibra: -0,65 mmHg;
  • Rica em frutos e vegetais: -0,57 mmHg.

O estudo concluiu que qualquer dieta de base vegetal, sem ou com produtos animais em pequenas quantidades, poderá diminuir o risco de hipertensão . Uma diminuição de pressão arterial da ordem do que se observa com dietas de base vegetal poderia resultar numa diminuição de 14% no risco de AVC, 9% no risco de ataques cardíacos e 7% no risco de mortalidade.

A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) consiste numa dieta rica em vegetais, frutos, cereais integrais, frutos secos e pobre em gorduras saturadas, e foi desenvolvida para tratar e prevenir a hipertensão. Vários estudos têm mostrado ser eficaz a diminuir a pressão arterial . O estudo CARDIA acompanhou 5115 pessoas com idades entre os 18 e os 30 anos ao longo de 15 anos, tendo mostrado que aqueles que consumiram mais produtos de origem vegetal incluindo frutos, cereais integrais, leguminosas e frutos secos, tiveram uma redução de até 36% na pressão arterial . Outro estudo prospetivo com 1546 participantes acompanhados ao longo de 3 anos mostrou que aqueles que fizeram um consumo superior de alimentos ricos em fitoquímicos tiveram um risco 48% inferior de hipertensão. Por outro lado, o consumo de carne vermelha e processada esteve associado a uma tensão arterial mais elevada .

Um estudo prospetivo que incluiu 188518 participantes mostrou que a ingestão de 1 porção por dia de qualquer tipo de carne esteve associado a um aumento de 30% no risco de hipertensão, especialmente no caso de carne vermelha, mas também de carne branca (22%) e em menor grau de peixe (5%) .

A forma como a carne é confecionada poderá também contribuir para o risco de hipertensão. Alguns estudos sugerem que cozinhar carne com temperaturas elevadas ou diretamente sobre a chama poderá contribuir para o risco de diabetes tipos 2 e hipertensão, independentemente da quantidade de carne ingerida. Um estudo com 93881 participantes, sugere que ingerir carne ou peixe grelhados ou bem passados poderá aumentar o risco de hipertensão entre aqueles que consomem esses alimentos regularmente . Alguns resultados:

  • Consumir mais do que 15 vezes por mês carne vermelha, aves ou peixe cozinhados com temperaturas elevadas ou diretamente sobre a chama, esteve associado a um risco 17% superior de hipertensão, comparativamente com menos do 4 vezes por mês;
  • O consumo superior de carne, peixe ou aves bem passados esteve associado a um risco 15% superior de hipertensão;
  • A ingestão superior de aminas heterocíclicas esteve associada a um risco 17% superior de hipertensão.

Outro fator de risco de hipertensão importante poderá também ser a ingestão de bebidas alcoólicas, mesmo com moderação. Um estudo prospetivo que incluiu 17059 participantes acompanhados ao longo de mais de 20 anos, sugere que mesmo em moderação (1 a 2 bebidas por dia), o consumo de bebidas alcoólicas poderá aumentar o risco de hipertensão. Comparativamente com aqueles que não bebiam, consumidores moderados de álcool tiveram um risco 53% superior de hipertensão de estágio 1 e um risco 2 vezes superior de hipertensão de estágio 2. No caso daqueles que bebiam mais do que 2 bebidas por dia, o risco de hipertensão de estágio 1 foi 69% superior enquanto o risco de hipertensão de estágio 2 foi 2,4 vezes superior. Em média, a pressão arterial era de 109/67 mmHg entre aqueles que nunca bebiam bebidas alcoólicas, 128/79 mmHg entre aqueles que bebiam com moderação e 153/82 mmHg entre aqueles que bebiam mais.

Por outro lado, um estudo que envolveu 11004 participantes (EPIC), mostrou que entre os grupos de omnívoros, pescetarianos, vegetarianos e veganos, os omnívoros tinham uma maior prevalência de hipertensão e os veganos eram os que tinham uma menor prevalência. Essas diferenças podem ser atribuídas à diferença de peso entre os grupos .

Uma meta-análise a 7 estudos clínicos e 32 estudos observacionais mostrou que uma dieta vegetariana esteve associada a uma pressão arterial inferior comparativamente com uma dieta omnívora .

Um estudo prospetivo com 500 participantes mostrou que, comparativamente com omnívoros com uma alimentação saudável, ovo-lacto-vegetarianos e veganos tiveram um risco 43% e 63% inferior de hipertensão, respetivamente .

Outro estudo de coorte com 4109 participantes acompanhados ao longo de 1,61 anos mostrou que aqueles que eram vegetarianos tiveram um risco 34% inferior de hipertensão. Esses efeitos foram observados de forma independente do peso, inflamação e resistência à insulina .

Também de acordo com o estudo prospetivo Adventist Health Study 2, comparativamente com omnívoros, os veganos tiveram um risco 75% inferior de hipertensão e os vegetarianos tiveram um risco 55% inferior de hipertensão .

A hipertensão é um fator de risco muito importante associado à mortalidade em todo o mundo, sendo que uma dieta de base vegetal poderá ser uma forma eficaz de a prevenir ou tratar. De facto a dieta não só é um fator de risco importante para hipertensão, como é ainda mais determinante para o risco de mortalidade. De acordo com um estudo que decorre há 27 anos (Global Burden of Disease), o qual analisa as causas de morte em 195 países e territórios, comer mal mata mais do que todos os outros fatores de risco como o tabaco ou a hipertensão, sendo que 1 em cada 5 mortes em todo o mundo está relacionada com uma dieta desequilibrada . Os 3 principais fatores de risco alimentares responsáveis por essas mortes globalmente são: 1) demasiado sal (3 milhões de mortes); 2) insuficientes cereais integrais (3 milhões de mortes); 3) insuficiente fruta (2 milhões de mortes). Além disso, outros fatores importantes foram os níveis insuficientes de frutos secos, sementes, vegetais, ómega-3 e fibra.

Para a hipertensão, mas também para todos os outros problemas de saúde, e também para o ambiente, uma dieta de base vegetal de qualidade é a melhor medida que podemos tomar.

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