O cancro do pulmão era raro até ao final do séc. XIX, com apenas 140 casos reportados na literatura mundial antes de 1898 e apenas 374 em 1912. A incidência atingiu um pico na maior parte dos países desenvolvidos na segunda metade do séc. XX e de forma mais tardia para as mulheres

. Desde então, o cancro do pulmão tem sido o cancro mais comum no mundo por várias décadas. Estima-se que tenham havido cerca de 1,8 milhões de novos casos em 2012 (12,9% do total). Esta doença continua a ser o cancro mais comum nos homens em todo o mundo (1,2 milhões), com as taxas de incidência mais elevadas na Europa Central e de Leste. O cancro do pulmão é a causa de morte por cancro mais comum em todo o mundo, estimando-se que seja responsável por cerca de 1 em cada 5 casos de morte. Em Portugal, o cancro do pulmão é o quarto cancro mais comum, a seguir ao colorretal, próstata e mama, sendo também o que mais mata.

 

Fumar e outras exposições ao fumo de tabaco, mesmo a passiva, são os fatores de risco mais importantes para o cancro do pulmão, representando cerca de 85% dos casos da doença nos países desenvolvidos. Substâncias cancerígenas no fumo do tabaco, ou outras partículas inaladas como o alcatrão de hulha ou o amianto, podem interagir diretamente com o ADN das células do pulmão, o que pode levar a lesões cancerígenas. Outras substâncias que podem ser causa de cancro do pulmão incluem:

  • Arsénico;
  • Alumínio;
  • Vapores de alcatrão de hulha;
  • BCME e CMME;
  • Erionite;
  • Poluentes da fundição de ferro e aço;
  • Óleos minerais;
  • Gás mostarda;
  • Fuligem;
  • Pó de talco contendo tremolite asbestiforme;
  • Cloreto de vinila.

Embora o tabaco seja o principal fator de risco para o cancro do pulmão, outros fatores podem contribuir para a doença. De acordo com a WCRF/AICR, o arsénico presente na água canalizada e doses farmacológicas de betacaroteno na forma de suplemento (este último apenas em fumadores) , são causa convincente de cancro do pulmão. Frutos e alimentos ricos em carotenóides provavelmente protegem contra a doença. Fatores como selénio, quercetina e exercício físico poderão diminuir o risco.

 

Consumir cerca de 400 g de frutos e vegetais por dia, parece estar associado a uma diminuição de 27% no risco de cancro do pulmão . Além disso, as vitaminas C e E poderão também diminuir o risco deste cancro, mas o consumo de carne vermelha, produtos lácteos e a gordura saturada podem estar associados a um risco superior da doença .

 

Um estudo recente sugere que uma dieta com um índice glicémico elevado poderá aumentar o risco de cancro do pulmão. O estudo foi desenvolvido no Centro de Cancro MD Anderson e incluiu 1905 pessoas diagnosticadas com cancro do pulmão e 2413 pessoas saudáveis que serviram de controlo. Aqueles que tinham uma dieta com um IG mais alto apresentaram um risco 49% superior de cancro do pulmão. Por outro lado, a carga glicémica não estava associada ao risco, o que sugere que mais importante do que a quantidade de hidratos de carbono é a qualidade destes que verdadeiramente importa .

 

O índice glicémico (IG) é um fator de que diferencia os hidratos de carbono em função da velocidade com que são absorvidos para a corrente sanguínea. Quanto mais rápido for essa absorção, maior será a libertação de insulina pelo pâncreas. A escala é indicada em percentagens e tem como referência o pão branco com um IG igual a 100. Os alimentos mais processados têm um IG mais elevado aumentando os níveis de açúcar e insulina no sangue. Alimentos com mais fibra têm um IG inferior, fazendo com que o nível de açúcar no sangue se mantenha mais baixo.

 

Dietas com um índice glicémico elevado resultam em níveis mais altos de açúcar e insulina no sangue, os quais promovem intolerância à glicose, resistência à insulina e hiperinsulinémia. A resistência à insulina é uma condição patológica e estudos anteriores sugerem que esteja associada a níveis elevados de fatores de crescimento, adipocinas, espécies reativas de oxigénio, fatores de adesão e citocinas proinflamatórias, todos os quais poderão estar associados ao risco de cancro .

Os níveis de insulina em circulação têm sido associados ao risco de vários cancros . Uma das vias pelas quais poderá aumentar o risco de cancro poderá ser por aumentar os níveis da hormona de crescimento IGF-1. Esta hormona faz parte de um sistema de regulação do crescimento e perturbações nos níveis de IGF-1 estão associados ao risco de vários cancros . O IGF-1 tem um papel fundamental na regulação da proliferação celular, diferenciação e apoptose. Por outro lado, proteínas de ligação ao IGF (IGFBP) inibem a ação do IGF-1. Níveis baixos de IGFBP estão associados a um risco superior de cancro . Um estudo anterior sugere que níveis elevados de IGF-1 e baixos de IGFBP estão associados a um risco superior de cancro do pulmão .

 

Os níveis elevados de IGF-1 têm sido associados a quase todos os tipos de cancro, embora essa relação seja mais evidente relativamente aos cancros mais comuns, tais como os da mama, próstata e colorretal:

  • Cancro da mama: o estudo europeu prospetivo sobre cancro e nutrição (EPIC) verificou que os níveis elevados de IGF-1 estavam associados a 40% de risco superior de cancro da mama em mulheres na pós-menopausa . Uma meta-análise que reuniu os dados obtidos de 17 diferentes estudos prospetivos concluiu que as mulheres com níveis superiores de IGF-1 no sangue tinham um risco 28% maior de ter cancro da mama independentemente de terem tido ou não a menopausa . No Nurses’ Health Study, os níveis elevados de IGF-1 foram associados a um risco superior de cancro da mama, duas vezes maior em mulheres na pré-menopausa .
  • Cancro da próstata: uma meta-análise a 42 estudos diferentes concluiu que os níveis elevados de IGF-1 em circulação estão associados a um risco superior de cancro da próstata . Um estudo sugere que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco 5.1 vezes superior de cancro da próstata de estágio avançado, sendo de 9.5 vezes superior quando associado a níveis baixos de IGFBP-3 .
  • Cancro colorretal: estudos epidemiológicos, clínicos e de laboratório sugerem que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco superior de cancro colorretal . Uma meta-análise a 19 estudos epidemiológicos concluiu que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco 35% superior de cancro do cólon .

Dietas com um índice glicémico ou carga glicémica elevados poderão estar associadas a um risco superior de vários cancros:

  • Cancro da mama: um estudo que incluiu 334849 mulheres (EPIC) concluiu que uma dieta com uma carga glicémica elevada e rica em hidratos de carbono (simples) está associado a um risco superior de desenvolver cancro da mama com recetores de estrogénio negativos entre mulheres após a menopausa . Outro estudo prospetivo conclui que uma dieta com uma carga glicémica elevada está associada a um risco 45% superior de cancro da mama .
  • Cancros da próstata, colorretal e pâncreas: um estudo recente concluiu que uma dieta com um IG elevado pode estar associada a um risco 26% de cancro da próstata e uma dieta com uma carga glicémica elevada pode estar associada a um risco 28% superior de cancro colorretal e 41% do pâncreas .
  • Cancro do endométrio: uma met-análise a 36 estudos prospetivos concluiu que uma dieta com uma carga glicémica elevada está associada a um risco 21% superior de cancro do endométrio .

 

A dieta ocidental caracteriza-se por consumir em excesso alimentos ricos em proteína animal e açúcares, ambos associados a um aumento de IGF-1 e responsáveis por estimular os mecanismos que regulam o crescimento das células. Por outro lado, uma dieta de base vegetal, sem alimentos processados, rica em leguminosas e outras proteínas vegetais, parece ser uma maneira eficaz de controlar os níveis de açúcar, insulina e IGF-1. Um estudo que compara as diferenças entre dietas vegetarianas, veganas e omnívoras mostra que aqueles que seguem uma dieta vegana, sem nenhum tipo de proteína animal, apresentam os níveis mais baixos de IGF-1 e os níveis mais elevados de IGFBP .  Outro estudo sugere também que uma dieta vegana que inclua grandes quantidades de fruta, vegetais, cereais integrais, leguminosas e frutos secos é caracterizada por um IG baixo, comparando com uma dieta omnívora .

 

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