Um artigo recente da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Políticas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPEBS) começa por fazer uma afirmação forte: “existe uma única espécie responsável pela pandemia COVID-19 – nós”. De facto, este evento à escala global é mais um que nos deve levar a refletir nos modelos sociais e comportamentais que facilitam todas estas emergências relacionadas entre si: desde a pandemia até à emergência climática, passando pela saúde pública e até pela justiça social.

O artigo continua lembrando que “tal como com as crises climáticas e de biodiversidade, as pandemias recentes são uma consequência direta da atividade humana – particularmente os nossos sistemas globais financeiros e económicos, baseados num paradigma que premeia o crescimento económico a qualquer custo”. A contínua desflorestação, expansão da agricultura, agropecuária intensiva e desenvolvimento de infraestruturas, assim como a exploração de espécies selvagens criou a tempestade perfeita para a passagem de doenças da vida selvagem para os humanos.

O artigo alerta também para o facto de que existem 1,7 milhões de vírus não identificados que infetam humanos, presentes em mamíferos e aves. Vírus que aguardam pacientemente para dar o salto e iniciar aquilo que nos trouxe aqui. Um estudo recente reforça a tese que a atual pandemia deve-se em grande medida ao impacto da atividade humana nos ecossistemas e na vida selvagem. O estudo sugere que a exploração da vida selvagem através da caça e comércio facilita o contacto próximo com os humanos, sendo que essa exploração, assim como atividades antropogénicas responsáveis por perdas na qualidade dos habitats selvagens, aumentaram as oportunidades para interações animais-humanos, facilitando a transmissão de doenças zoonóticas .

Nesse sentido, o pior que podemos fazer como resultado da grande crise que estamos a passar é voltar rapidamente ao velho normal e aos velhos comportamentos. De facto, com a “normalidade” a aproximar-se, todos os comportamentos de risco que nos colocaram nesta situação espreitam perigosamente à espera da primeira oportunidade para recuperarem o seu domínio sobre todas as coisas do mundo. Não há nada mais perigoso para o futuro frágil da humanidade do que o business as usual. A história mostra-nos que a seguir a uma situação de recessão procuramos compensar o tempo perdido e intensificamos as atividades económicas ainda mais. Como tal, devemos reforçar os movimentos de justiça climática do ano passado com uma recusa do regresso à normalidade que marca os próximos anos. Podemos encarar este momento como uma oportunidade para criarmos um novo paradigma social, combatendo as crises económica, de saúde e climática de forma integrada. Para isso, os esforços de recuperação económica deveriam incluir desde já os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e criar condições para transformar os setores responsáveis pela crise climática, colocando o Pacto Ecológico Europeu no centro dessa recuperação.

O século XX foi um período de alterações ecológicas sem precedentes, com reduções dramáticas nos ecossistemas naturais e biodiversidade, diametrialmente inversas ao crescimento exponencial da população e de animais domesticados. Nunca existiram por isso tantas oportunidades para patógenos transitarem de animais selvagens e domesticados e afetarem pessoas causando doenças zoonóticas ou zoonoses. A consequência disso tem sido um aumento global de doenças zoonóticas emergentes. Cerca de 60% de todas as doenças infecciosas nos humanos são zoonóticas assim como 75% de todas as doenças infecciosas emergentes . Há 50 anos, com a produção e utilização em larga-escala de antibióticos e vacinas, os humanos pareciam ter ganho a batalha contra as doenças infecciosas.

Desde então, no entanto, além de uma crescente resistência aos antibióticos por parte de bactérias patogénicas, tem havido um aumento de surtos de zoonoses antigas e novas, maioritariamente virais e frequentemente transmitidas por animais . Em média, uma nova doença infecciosa surge em humanos a cada 4 meses . Todos os anos, as zoonoses causam cerca de mil milhões de casos de doença e milhões de mortes . Embora muitas dessas doenças surjam na vida selvagem, os animais de pecuária servem frequentemente de ponte epidemiológica entre essa vida selvagem e infeções em humanos. Isso é especialmente assim no caso da pecuária intensiva . Um exemplo da pecuária a funcionar como ponte é o caso do vírus da gripe aviária que circulou primeiro em pássaros selvagens tendo depois infetado aves para consumo humano as quais transmitiram o vírus para humanos.

A emergência de doenças zoonóticas está frequentemente associada a alterações ambientais como a intensificação da agricultura e estabelecimento humano . A perda de habitats, a modificação dos ambientes naturais e o declínio da biodiversidade são todos fatores que contribuem para a propagação de doenças infecciosas emergentes.  Isto pode acontecer através de vários mecanismos :

  • Aumento de locais que facilitam o crescimento de vetores de doença, como canais e barragens onde mosquitos proliferam;
  • Aumento da propagação de espécies hospedeiras;
  • Manter espécies selvagens em cativeiro em contacto próximo uns com os outros e com animais domesticados;
  • Transferência de patógenos entre diferentes espécies;
  • Perda de predadores;
  • Alterações genéticas induzidas pelos humanos em vetores de doença ou patógenos;
  • Contaminação ambiental por agentes infecciosos.

De acordo com o IPBES, três quartos do solo e dois terços do ambiente marinho foram modificados de formas significativas, sendo que 1 milhão de espécies de animais e vegetais estão em risco de extinção. As alterações na utilização dos solos, incluindo a desflorestação e modificação dos habitats naturais, são responsáveis por cerca de metade das zoonoses emergentes . A destruição e degradação das florestas expõe os humanos a novas formas de contacto com microorganismos potencialmente patogénicos e a espécies selvagens hospedeiras. Por exemplo, as incursões nas florestas da África Ocidental levaram a uma aproximação das populações humanas com morcegos que transportam o vírus do Ébola. Também o VIH se adaptou aos humanos a partir de variantes encontradas em primatas nas florestas da África Central.

Além das modificações no ambiente resultantes das atividades humanas como a agricultura, as alterações climáticas são também um fator que contribui para a emergência de doenças zoonóticas ao alterar condições que têm impacto sobre a forma como os patógenos, vetores e hospedeiros sobrevivem, reproduzem-se assim como a sua abundância e distribuição. Vários estudos sugerem que surtos ou doenças epidémicas poderão tornar-se mais frequentes com as alterações climáticas . Por outro lado, os países em desenvolvimento têm uma procura cada vez maior de produtos animais, o que aumenta o risco de transmissão de doenças. Essa procura por produtos de pecuária leva a uma produção mais intensiva, o que cria mais oportunidades de contacto com e entre os animais, além de que estes carecem de diversidade genética a qual ajuda a resistir à propagação de doenças.

De forma a promover uma abordagem multidisciplinar e colaborativa na forma como lidamos com os potenciais riscos decorrentes da interação entre a saúde humana, animal e ambiental, durante a última década surgiu um conceito a que se deu o nome de “One Health” (Saúde Una), a qual reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa abordagem foi reconhecida formalmente por várias organizações como a ONU, a OMS, a Comissão Europeia, Instituições de investigação e outras. De facto, podemos dizer que se existe alguma coisa que marca as crises mais marcantes deste século, como a emergência climática, as pandemias e a saúde pública é o reconhecimento crescente da profunda interconexão entre todas as esferas de vida e da atividade humana. Criarmos um sistema que coloque no centro esta realidade unificada já não pertence ao domínio do altruísmo ou da ficção moral: é tão pragmático como a luta pela sobrevivência exige. As modificações dramáticas a que o planeta tem sido sujeito pela atividade humana são de tal ordem que podemos hoje reconhecer que vivemos numa nova era, a era do Antropoceno. Criar sistemas de vida e modelos sociais que assentem na sustentabilidade e na noção da interdependência planetária será o grande desafio desta geração.

Levando em consideração todos os fatores que contribuem para a emergência de zoonoses e a forma como estão relacionados com relação entre os humanos e os ecossistemas, um dos epicentros de todos esses fatores passa pela agricultura e pela forma como nos alimentamos, em especial, a produção intensiva de produtos animais. De facto, estamos a chegar a um ponto em que quando olhamos as pistas deixadas no local do crime, quase todos os indícios apontam para a forma como produzimos e consumimos carne. Desde os efeitos para a saúde, passando pela emergência climática, aspetos éticos e até o aparecimento de novas pandemias, todos envolvem de certa forma o consumo excessivo de produtos animais. Enquanto não tratarmos da vaca no meio da sala, não resolvemos uma parte da origem de muitos dos problemas que enfrentamos atualmente.

Vivemos tempos de crises dentro de crises. Embora aquela que ocupa a maior parte das nossas preocupações atuais seja a da pandemia por COVID-19, existe outra ainda mais abrangente e com implicações mais graves para o futuro das nossas sociedades: a emergência climática.  Em 2018 foi publicado o relatório do IPCC que nos deu um retrato urgente da situação climática em que nos encontramos, ao mesmo tempo que nos deu um prazo: temos até 2030 para reduzir cerca de 45% as emissões de gases com efeitos de estufa (GEEs). Para isso ser possível precisamos de fazer alterações rápidas, abrangentes e sem precedentes em todos os aspetos da sociedade. De acordo com o consenso atual, de forma a termos 66% de possibilidades de atingir o objetivo de limitar o aumento de temperatura média global abaixo de 1,5 graus, não podemos ultrapassar as 420 giga toneladas de emissões de CO2 durante a próxima década. Além disso teremos de remover cerca de 720 GiTCO2 da atmosfera para o conseguirmos.

O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente avisa que sem ações imediatas e radicais de forma a reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa (GEEs), não será possível atingir os objetivos do Acordo de Paris e manter o aquecimento global abaixo dos 2 graus centígrados ou idealmente abaixo dos 1,5 graus. Na realidade, neste momento, mesmo que todos os compromissos do Acordo sejam cumpridos, o mundo encaminha-se para um aumento de 3,2 graus na temperatura média global. De acordo com o relatório, apenas será possível manter a o aumento da temperatura abaixo dos 1,5 graus, caso se reduza 7,6% por ano as emissões de GEEs até 2030. Isso significaria que a vontade coletiva em implementar medidas para reduzir as emissões teria de ser 5 vezes superior aos níveis atuais.

As soluções para impedir uma catástrofe climática existem, mas neste momento terão de ser colocadas em práticas de forma radical e urgentemente a partir de 2020 se quisermos ter alguma chance de o conseguir. O facto é que, mesmo com todos os alertas que têm sido dados durante as últimas décadas, as emissões de GEEs aumentaram 1,5% por ano nos últimos 10 anos. As emissões de GEEs em 2018 atingiram o novo máximo de 55 gigatoneladas de CO2eq. De forma a limitarmos o aquecimento abaixo de 1,5 graus teremos de baixar as emissões anuais em 32 GiTCO2eq relativamente às contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) atuais. Quanto mais tempo passa sem tomarmos medidas radicais, mais difícil se torna manter um horizonte de esperança no equilíbrio climático.

Neste contexto, se existe alguma coisa que esta pandemia veio demonstrar é que quando estamos devidamente motivados e reconhecemos uma ameaça, conseguimos fazer alterações profundas no tecido social num curto espaço de tempo. Um dos efeitos colaterais da pandemia foi uma diminuição muito significativa nas emissões e na poluição, mas de uma forma pouco sustentada às custas da economia, o que mostra a fragilidade de uma economia que coloca em planos dicotómicos a vida e os empregos. A palavra “economia” tem origem na palavra grega oikos que significa casa, e é desta casa que temos de cuidar. A ecologia tem também uma raiz semelhante, mas com um sentido de certa forma diferente. O desafio é conseguirmos criar um modelo socioeconómico que consiga conciliar esses dois termos, uma ecolonomia.

As alterações que são exigidas abrangem todos os setores da sociedade, incluindo as nossas dietas e a produção dos alimentos. Regenerar os solos e repor a vegetação natural, como as florestas, é atualmente a melhor opção para remover CO2 da atmosfera e deve ser feito imediatamente para ser efetivo dentro da oportunidade de tempo que existe até atingirmos emissões zero em 2050 .

O setor dos solos, comumente referido como “agricultura, floresta e outras utilizações do solo” (AFOLU) é responsável por cerca de 10 a 12 GtCO2e (cerca de 25%) das emissões antropogénicas de gases com efeitos de estufa (GEEs). A agricultura é responsável por cerca de metade dessas emissões e a utilização dos solos, a modificação dos solos e a gestão da floresta de outra metade. O solo representa um setor fundamental para a mitigação das emissões de GEEs por ser um potencial armazenador de carbono. A cadeia de produção de alimentos é responsável por cerca de 26% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e está associada à utilização de 43% do solo livre de gelo e de deserto. Além disso, essa produção é também responsável por cerca de 32% da acidificação terrestre e 78% da eutroficação. Por outro lado, a produção de carne, leite, ovos e aquacultura utiliza 83% dos terrenos agrícolas em todo o mundo, contribuindo para 58% das emissões de GEEs relacionados com a produção de alimentos. No entanto, estes alimentos representam apenas 18% das calorias e 37% das proteínas ingeridas..

A agropecuária é responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) globais. A produção de ração (45%) e fermentação entérica (39%) são as duas principais fontes de emissões do setor, sendo que a produção de carne de vaca e de laticínios representam 41% e 20% dessas emissões, respetivamente. A produção de gado é por isso um dos principais responsáveis pela desflorestação, ocupando a maior parte do solo que tem de ser reflorestado, de forma a ser possível travar a emergência climática. Sem essa reposição de vegetação, e se o setor da produção de gado continuar “business as usual”, este poderá representar cerca de 49% do orçamento de emissões em 2030, exigindo que outros setores reduzam as emissões em níveis irrealistas, além dos níveis previstos .

De acordo com o recente relatório do IPCC sobre a utilização de terrenos, os esforços para diminuir as emissões de GEEs e os impactos do aquecimento global serão muito insuficientes sem alterações drásticas na forma como utilizamos os terrenos globalmente, na agricultura e nas dietas humanas. O relatório refere-se às dietas de base vegetal como uma grande oportunidade de mitigar e adaptarmo-nos às alterações climáticas, incluindo uma recomendação específica de se reduzir o consumo de carne vermelha. Transitarmos para uma dieta de base vegetal globalmente é uma das medidas importantes para travarmos as alterações climáticas. De acordo com o IPCC, Se mudássemos para uma dieta sem produtos animais, em 2050 usaríamos menos terrenos, conseguiríamos regenerar florestas e diminuiríamos cerca de 7,8 GtCO2 por ano. Caso reduzíssemos o consumo de carne e aumentássemos o consumo de leguminosas, diminuiríamos entre 4,3 e 6,4 GtCO2 por ano .

Caso mudássemos para um padrão alimentar que excluísse produtos animais haveria uma redução de 76% na utilização de terreno, uma área equivalente ao território dos EUA, China, EU e Austrália juntos, assim como uma diminuição de 49% na emissão de GEEs (6,6 GiTCO2eq), 50% na acidificação e 49% na eutroficação. Além disso, o solo que não seja utilizado para produção de alimentos poderia remover 8,1 GiTCO2eq da atmosfera em cada ano ao longo de 100 anos .

Mudar de alimentação reduzindo o consumo de produtos animais, em especial carne de ruminantes, tem o potencial de diminuir até 8 GtCO2eq de GEEs por ano. Reduzir o desperdício alimentar poderia mitigar até 4,5 GtCO2e por ano. Mesmo que não se retirasse por completo os produtos animais da alimentação, caso 50% da população global reduzisse o consumo de proteína animal para menos de 60g por dia seria possível diminuir 2,2 GtCO2e por ano. Reduzir para metade o desperdício alimentar diminuiria 2,4 GtCO22 por ano. Por outras palavras, se 1 em 5 pessoas nos países mais ricos fizesse uma dieta quase exclusiva de base vegetal e desperdiçasse menos um terço da comida que desperdiça atualmente, enquanto os países mais pobres fossem ajudados a preservar as suas florestas e a restaurar os solos degradados, os sistemas de produção de alimentos globais poderiam absorver CO2 em 2050 em vez de contribuírem para a emissão de GEEs como acontece atualmente .

No entanto, desde o primeiro relatório do IPCC em 1990, a produção de carne, leite e ovos aumentou de 750 milhões de toneladas para 1247 milhões de toneladas em 2017, estimando-se que estes números continuem a aumentar . Nesse sentido, o crescimento continuado do setor da pecuária aumenta o risco de excedermos o orçamento de emissões necessário para não ultrapassar 1,5 graus de aquecimento global, limita a remoção de CO2 da atmosfera e ameaça os sumidouros naturais de carbono restantes.

Um relatório anterior do Conselho Consultivo da Academia Europeia das Ciências alertou também que as alterações climáticas são uma das maiores ameaças à saúde. E temos pouco tempo para agir. A evidência mostra claramente que as alterações climáticas estão a afetar a saúde e que esses efeitos aumentarão com o tempo. As soluções estão ainda ao nosso alcance, mas implicariam uma grande vontade política e coletiva para as atingir. Alguns dos riscos para a saúde relacionados com as alterações climáticas incluem:

  • Aumento da incidência de doenças infecciosas em parte devido ao crescimento de mosquitos transmissores de doenças;
  • Exposição a temperaturas cada vez mais elevadas e eventos extremos como inundações, secas, poluição e alergénios;
  • Diminuição da segurança alimentar;
  • Risco de migração.

Além dos efeitos para a saúde e aumento da mortalidade, as alterações climáticas têm também consequências para a saúde mental, aumentando o risco de stress pós-traumático, ansiedades, abuso de substâncias e depressão. De acordo com os autores, caso não se tomem medidas urgentes para reduzir as emissões mantendo as temperaturas abaixo do limite de 2 graus, enfrentamos mudanças potencialmente irreversíveis que terão um grande impacto em vários aspetos da saúde. Algumas das mensagens centrais presentes no relatório incluem:

  • Promoção de dietas saudáveis e sustentáveis com um aumento no consumo de frutos, vegetais e leguminosas e uma diminuição no consumo de carnes vermelhas poderá diminuir a carga de doenças crónicas assim como as emissões de gases com efeitos de estufa. A promoção de uma dieta sustentável poderá diminuir até 40% as emissões relacionadas com a produção de alimentos assim como diminuir a necessidade de terrenos e água;
  • Várias centenas de milhares de mortes prematuras poderiam ser evitadas anualmente na EU por uma economia descarbonizada ao reduzir-se a poluição do ar. Cerca de 350000 pessoas morrem anualmente na EU por mortes relacionadas com a poluição devido aos combustíveis fósseis;
  • Uma ação climática poderia evitar o aumento de doenças infeciosas. Mosquitos responsáveis pela transmissão de doenças como o dengue já se estão a expandir pela Europa e poderão chegar à Europa Ocidental dentro da próxima década;
  • Apresentar evidências científicas dos benefícios para a saúde de ações sobre as alterações climáticas poderá ser fundamental para se atingirem os objetivos na redução de emissões.

Além da importância para o combate às alterações climáticas, uma dieta de base vegetal tem também muito benefícios para a saúde na redução do risco de doenças crónicas e de mortalidade. As mesmas alterações alimentares que poderiam diminuir o risco de doenças crónicas, seriam também importantes para atingir os objetivos de sustentabilidade ambiental . De facto, uma má alimentação é o principal fator de risco de mortalidade em todo o mundo. Comer de forma desequilibrada é responsável por mais mortes do que todos os outros fatores de risco como o tabaco ou a hipertensão. Cerca de 1 em cada 5 mortes em todo o mundo está relacionada com uma dieta desequilibrada. Em 2017, 11 milhões de mortes estiveram diretamente relacionadas com a alimentação. Os 3 principais fatores de risco alimentares responsáveis por essas mortes são: 1) demasiado sal (3 milhões de mortes); 2) insuficientes cereais integrais (3 milhões de mortes); 3) insuficiente fruta (2 milhões de mortes). Além disso, outros fatores importantes foram os níveis insuficientes de frutos secos, sementes, vegetais, ómega-3 e fibra. As principais causas de mortes relacionadas com a alimentação foram as doenças cardiovasculares (10 milhões), seguidas de doenças oncológicas (913090) e diabetes tipo 2 (333714), sendo que estas representam cerca de 40% de todas as mortes globalmente .

Estes dados cruzam-se com os resultados recentes do relatório EAT-Lancet que nos dá um conjunto de recomendações científicas para uma alimentação saudável e sustentável. O relatório foi elaborado pela Comissão EAT – um projeto a três anos que reúne 37 especialistas de 16 países das áreas da saúde, nutrição, sustentabilidade ambiental, economia e governança política. De forma a garantirmos a sustentabilidade da produção de alimentos assim como redução do impacto destes nas doenças crónicas, é preciso levar a cabo uma transformação global do sistema alimentar envolvendo todos os seus aspetos, desde o consumidor até aos decisores políticos, passando pela indústria e todos os atores participantes. Algumas das conclusões e mensagens do relatório:

  • Alimentar uma população mundial de 10 mil milhões de pessoas em 2050 com uma dieta saudável e sustentável será impossível sem se transformarem os hábitos alimentares, melhorar a produção dos alimentos e diminuir o desperdício;
  • Dietas saudáveis têm uma ingestão calórica adequada e consistem numa grande diversidade de alimentos vegetais, quantidades pequenas de produtos animais, gorduras insaturadas em vez de saturadas e poucas quantidades de cereais refinados, alimentos muito processados e açúcares adicionados;
  • A transformação em dietas saudáveis até 2050 vai necessitar de alterações muito significativas, incluindo uma redução maior do que 50% no consumo global de alimentos pouco saudáveis, tais como carne vermelha e açúcar, e um aumento maior do que 100% no consumo de alimentos saudáveis, como vegetais, frutos, leguminosas e frutos secos;
  • As mudanças das dietas atuais para dietas saudáveis poderão evitar 10,8-11,6 milhões de mortes por ano, o que corresponde a uma diminuição de 19-23,6%;
  • Garantir dietas saudáveis e sustentáveis para todos irá necessitar de mudanças muito significativas no sentido de padrões alimentares saudáveis, grandes diminuições no desperdício alimentar e grandes melhorias nas práticas de produção. Este objetivo universal para todos os humanos está dentro das possibilidades mas irá requerer a adoção de objetivos científicos por todos os setores de modo a estimular um espectro de ações dos indivíduos e organizações a trabalhar em todos os setores e escalas;
  • Mesmo um aumento de pequenas quantidades de carne e laticínios faria com que estes objetivos sejam difíceis ou impossíveis de atingir.

O relatório EAT-Lancet estabeleceu objetivos científicos para uma dieta saudável e sustentável a que chamou de dieta da saúde planetária. A dieta da saúde planetária é de base vegetal, ou flexitariana: baseia-se principalmente em produtos de origem vegetal, mas pode opcionalmente incluir quantidades baixas de peixe, carne ou lacticínios. Esta dieta identifica as quantidades de diferentes grupos de alimentos que podem promover a saúde. O modelo pode ser adaptado às preferências locais e individuais, dentro dos limites apresentados. Alguns limites e recomendações propostas para a dieta da saúde planetária:

  • Cereais integrais: 232 g/dia;
  • Vegetais e frutos: 500 g/dia;
  • Tubérculos e amiláceos: 50 g/dia;
  • Produtos lácteos: 250 g/dia;
  • Carne vermelha: 14 g/dia;
  • Galinha e outras aves: 29 g/dia;
  • Peixe: 28 g/dia;
  • Ovos: 13 g/dia;
  • Leguminosas: 75 g/dia;
  • Frutos secos: 25 g/dia;
  • Óleos insaturados: 40 g/dia;
  • Todos os açúcares: 31 g/dia.

Estes valores representam uma referência sobre a qual se podem contruir vários modelos de acordo com preferências culturais ou pessoais. A principal mensagem passa por reduzir cada vez mais produtos de origem animal e concentrarmos as nossas escolhas em produtos vegetais de qualidade . Em resumo:

  • A emergência climática é a maior ameaça à segurança das nossas sociedades e temos de rapidamente adotar medidas radicais para evitarmos o colapso climático;
  • A cadeia de produção de alimentos é um fator determinante para o combate às alterações climáticas;
  • A produção de carne é responsável pela maior percentagem de emissões de GEEs;
  • Os esforços para diminuir as emissões de GEEs e os impactos do aquecimento global serão muito insuficientes sem alterações drásticas na forma como utilizamos os terrenos globalmente, na agricultura e nas dietas humanas;
  • Uma alimentação desequilibrada representa o fator mais importante para o risco de mortalidade em todo o mundo;
  • Promover dietas de base vegetal é uma das medidas importantes para diminuir o risco de doenças crónicas e diminuir as emissões de GEEs;
  • A mudança para dietas sustentáveis até 2050 vai necessitar de alterações muito significativas, incluindo uma redução maior do que 50% no consumo global de alimentos pouco saudáveis, tais como carne vermelha e açúcar.

Perante tantas linhas de evidência, é no mínimo pouco ético continuar a ignorar as várias associações entre o consumo de produtos animais e o estado da saúde e do planeta. De facto, embora as vozes que defendem a redução ou a abolição do consumo de carne estejam tradicionalmente do lado daqueles que têm uma visão ética do bem-estar animal, reduzir esse consumo é cada vez mais uma questão de racionalidade e responsabilidade. Entre a relação que tem a ingestão de excesso de proteína animal e o risco de doenças crónicas e mortalidade (em números muito superiores às mortes por COVID-19) e o agravamento da emergência climática, passando pelo contributo para a resistência aos antibióticos, não podemos ignorar que a produção intensiva de animais, assim como o consumo de animais exóticos são uma incubadora de potenciais pandemias, como foram todas as mais recentes. Fazer uma dieta vegetal ou uma dieta da saúde planetária é uma questão de saúde, ética e tão central como qualquer outra medida de prevenção e mitigação dos problemas atuais de saúde e ambientais. Em tempos de contenção social, a máscara, além de poder evitar o contágio pelo vírus que sai de nós, deve ser um símbolo do cuidado com aquilo que entra.

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