Estamos numa emergência climática. Emergência climática essa que tem uma principal causa: a atividade humana. A acumulação de gases com efeitos de estufa na atmosfera tem levado a um aquecimento da temperatura média do planeta a uma velocidade sem precedentes. De acordo com as melhores estimativas, os fenómenos climáticos mais severos começam a ser mais comuns se ultrapassarmos 1,5 graus relativamente à temperatura pré-industrial. De forma a termos 66% de possibilidades de atingir o objetivo de limitar o aumento de temperatura média global abaixo de 1,5 graus, não podemos ultrapassar as 420 giga toneladas de emissões de CO2 entre 2018 e 2030. Se contarmos a partir de 2019, então o limite é de 335 GtCO2. Além disso teremos de remover cerca de 720 GiTCO2 da atmosfera para o conseguirmos.

Regenerar os solos e repor a vegetação natural, como as florestas, é atualmente a melhor opção para remover CO2 da atmosfera e deve ser feito imediatamente para ser efetivo dentro da oportunidade de tempo que existe até atingirmos emissões zero em 2050 . O setor dos solos, comumente referido como “agricultura, floresta e outras utilizações do solo” (AFOLU) é responsável por cerca de 10 a 12 GtCO2e (cerca de 25%) das emissões antropogénicas de gases com efeitos de estufa (GEEs). A agricultura é responsável por cerca de metade dessas emissões e a utilização dos solos, a modificação dos solos e a gestão da floresta de outra metade.

O solo representa um setor fundamental para a mitigação das emissões de GEEs por ser um potencial armazenador de carbono. A cadeia de produção de alimentos é responsável por cerca de 26% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e está associada à utilização de 43% do solo livre de gelo e de deserto. Além disso, essa produção é também responsável por cerca de 32% da acidificação terrestre e 78% da eutroficação . A agropecuária é responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) globais. A produção de ração (45%) e fermentação entérica (39%) são as duas principais fontes de emissões do setor, sendo que a produção de carne de vaca e de laticínios representam 41% e 20% dessas emissões, respetivamente.

A produção de carne, leite, ovos e aquacultura utiliza 83% dos terrenos agrícolas em todo o mundo, contribuindo para 58% das emissões de GEEs relacionados com a produção de alimentos. No entanto, estes alimentos representam apenas 18% das calorias e 37% das proteínas ingeridas.

As emissões de GEEs (CO2) associadas à produção de 100 g de proteína de diferentes alimentos são as seguintes :

  • Carne de vaca (para comer): 50 kg;
  • Cordeiro/carneiro: 20 kg;
  • Crustáceos (aquacultura): 18 kg;
  • Carne de vaca (para leite): 17 kg;
  • Queijo: 11 kg;
  • Porco: 7,6 kg;
  • Aves: 12 kg;
  • Peixe (aquacultura): 6 kg;
  • Aves: 5,7 kg;
  • Ovos: 4,2 kg;
  • Tofu: 2 kg;
  • Leguminosas: 0,8 kg;
  • Ervilhas: 0,4 kg.

Caso mudássemos para um padrão alimentar que excluísse produtos animais haveria uma redução de 76% na utilização de terreno, uma área equivalente ao território dos EUA, China, EU e Austrália juntos, assim como uma diminuição de 49% na emissão de GEEs (6,6 GiTCO2eq), 50% na acidificação e 49% na eutroficação. Além disso, o solo que não seja utilizado para produção de alimentos poderia remover 8,1 GiTCO2eq da atmosfera em cada ano ao longo de 100 anos .

A produção de gado é por isso um dos principais responsáveis pela desflorestação, ocupando a maior parte do solo que tem de ser reflorestado de forma a ser possível travar a emergência climática. Sem essa reposição de vegetação e se o setor da produção de gado continuar “business as usual”, este poderá representar cerca de 49% do orçamento de emissões em 2030, exigindo que outros setores reduzam as emissões em níveis irrealistas, além dos níveis previstos . A utilização de terrenos para produzir carne e a respetiva desflorestação representa por isso um custo de oportunidade de carbono importante. Por outras palavras, esses terrenos poderiam contribuir para o sequestro de CO2, em vez de serem uma fonte de emissões .

Um estudo quantificou esse custo de oportunidade de carbono e os efeitos de uma transição para dietas de base vegetal na capacidade dos solos sequestrarem carbono. De acordo com o estudo, a produção de carne de ruminantes e de laticínios representam a maior parte da totalidade do custo de oportunidade de carbono, sendo que o potencial de retenção de CO2 dos terrenos ocupados pela agricultura animal é comparável às emissões de combustíveis fósseis durante a última década .

Foram também comparados os impactos até 2050 na utilização de solos de 3 dietas: dieta business as usual (BAU); dieta da comissão Eat-Lancet, com redução de 70% no consumo de carne (ELC); dieta vegana, sem nenhum produto animal (VGN):

  • As dietas ELC e VGN estiveram associadas a uma remoção de 332 e 547 GtCO2, respetivamente, o que equivale a cerca de 9 a 16 anos de emissões passadas de combustíveis fósseis.

Deixar de utilizar combustíveis fósseis é fundamental para limitar o aquecimento global, mas a remoção de CO2 devido à transição para dietas de base vegetal poderia igualmente contribuir para os objetivos globais de redução de emissões.  Essa transição levaria ao sequestro de 332 a 547 GtCO2, o que seria equivalente a 99-163% do total de emissões de CO2 permitido de forma a não ultrapassarmos os 1,5 graus .

Outro estudo estima que com um conjunto de alterações na forma como utilizamos o solo, nomeadamente a agricultura e a gestão da floresta, seria possível contribuir com cerca de 30% ou 15 GtCO2e por ano da mitigação global necessária em 2050 para se atingir o objetivo de 1,5 graus. Por outras palavras, o setor do solo seria um sumidouro em vez de ser uma fonte de GEEs .

Uma das medidas propostas no estudo passa por alterarmos a nossa alimentação para dietas de base vegetal. Mudar de alimentação reduzindo o consumo de produtos animais, em especial carne de ruminantes, tem o potencial de diminuir até 8 GtCO2e de GEEs por ano. Reduzir o desperdício alimentar poderia mitigar até 4,5 GtCO2e por ano. Mesmo que não se retirasse por completo os produtos animais da alimentação, caso 50% da população global reduzisse o consumo de proteína animal para menos de 60g por dia seria possível diminuir 2,2 GtCO2e por ano. Reduzir para metade o desperdício alimentar diminuiria 2,4 GtCO2e por ano.

Por outras palavras, se 1 em 5 pessoas nos países mais ricos se tornasse quase vegana e desperdiçasse menos um terço da comida que desperdiça atualmente, enquanto os países mais pobres fossem ajudados a preservar as suas florestas e a restaurar os solos degradados, os sistemas de produção de alimentos globais poderiam absorver CO2 em 2050 em vez de contribuírem para a emissão de GEEs como acontece atualmente. Essas alterações também iriam contribuir para dietas mais saudáveis globalmente, preservar a flora e a vida selvagem e melhorar a qualidade da água e do ar. Diminuir o desperdício e reduzir o consumo de carne reduz a necessidade de utilizar solo para produzir ração, além de utilizar menos água e contribuir para uma menor degradação dos solos .

De acordo com o IPCC, Se mudássemos para uma dieta sem produtos animais, em 2050 usaríamos menos terrenos, conseguiríamos regenerar florestas e diminuiríamos cerca de 7,8 GtCO2 por ano. Essa redução seria equivalente à utilização global de energia nuclear. Caso reduzíssemos o consumo de carne e aumentássemos o consumo de leguminosas, diminuiríamos entre 4,3 e 6,4 GtCO2 por ano .De acordo com o recente relatório do IPCC sobre a utilização de terrenos, os esforços para diminuir as emissões de GEEs e os impactos do aquecimento global serão muito insuficientes sem alterações drásticas na forma como utilizamos os terrenos globalmente, na agricultura e nas dietas humanas. O relatório refere-se às dietas de base vegetal como uma grande oportunidade de mitigar e adaptarmo-nos às alterações climáticas, incluindo uma recomendação específica de se reduzir o consumo de carne vermelha.

Além dos benefícios para o combate às alterações climáticas, uma dieta de base vegetal tem também muitos benefícios para a saúde na redução do risco de doenças crónicas e de mortalidade. As mesmas alterações alimentares que poderiam diminuir o risco de doenças crónicas, seriam também importantes para atingir os objetivos de sustentabilidade ambiental .

De acordo com o relatório EAT-Lancet, de forma a garantirmos a sustentabilidade da produção de alimentos assim como redução do impacto destes nas doenças crónicas, é preciso levar a cabo uma transformação global do sistema alimentar. A mudança para dietas sustentáveis até 2050 vai necessitar de alterações muito significativas, incluindo uma redução maior do que 50% no consumo global de alimentos pouco saudáveis, tais como carne vermelha e açúcar, e um aumento maior do que 100% no consumo de alimentos saudáveis, como vegetais, frutos, leguminosas e frutos secos. Essas mudanças poderão evitar 10,8-11,6 milhões de mortes por ano, o que corresponde a uma diminuição de 19-23,6%.

No entanto, desde o primeiro relatório do IPCC em 1990, a produção de carne, leite e ovos aumentou de 750 milhões de toneladas para 1247 milhões de toneladas em 2017, estimando-se que estes números continuem a aumentar . O crescimento continuado do setor da pecuária aumenta o risco de excedermos o limite de emissões máximo de forma a não ultrapassarmos 1,5 graus de aquecimento global, limita a remoção de CO2 da atmosfera e ameaça os sumidouros naturais de carbono restantes.

De forma a termos alguma chance de travar a emergência climática e não ultrapassarmos os 1,5 graus de aquecimento global, um grupo de cientistas sugere que os países com médios e altos rendimentos adotem 4 medidas e incorporem-nas aos seus compromissos assumidos no Acordo de Paris :

  • Declarar um pico para a produção de gado durante a próxima década, ou seja, uma data a partir da qual a produção de gado não aumente e antes diminua;
  • Identificar dentro do setor da pecuária as fontes de maiores emissões ou de maior ocupação de solo e definir objetivos apropriados de redução na produção;
  • Aplicar a melhor estratégia disponível para diversificar a produção de alimentos, substituindo gado por alimentos que simultaneamente minimizem o impacto ambiental e contribuam para benefícios para a saúde pública – especialmente leguminosas, cereais integrais, frutos, vegetais, frutos secos e sementes;
  • Repor sempre que possível a vegetação nativa de forma a aumentar o maior potencial de sequestro de carbono dos solos.

Em resumo, além dos impactos diretos para o ambiente e saúde do excesso de produtos animais, o potencial de remoção de carbono ao fazermos uma transição global para dietas de base vegetal, é muito significativo. Nesse sentido, a dieta e a produção de alimentos deve ser visto como um fator complementar à necessária transição energética, se queremos atingir os objetivos no combate à emergência climática.

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