As escolhas alimentares que fazemos são determinantes para a saúde humana e a sustentabilidade ambiental. Uma má alimentação é principal fator de risco de mortalidade em todo o mundo . Comer mal mata mais do que todos os outros fatores de risco como o tabaco ou a hipertensão. Cerca de 1 em cada 5 mortes em todo o mundo está relacionada com uma dieta desequilibrada. Em 2017, 11 milhões de mortes estiveram diretamente relacionadas com a alimentação. Os 3 principais fatores de risco alimentares responsáveis por essas mortes são: 1) demasiado sal (3 milhões de mortes); 2) insuficientes cereais integrais (3 milhões de mortes); 3) insuficiente fruta (2 milhões de mortes). Além disso, outros fatores importantes foram os níveis insuficientes de frutos secos, sementes, vegetais, ómega-3 e fibra. As principais causas de mortes relacionadas com a alimentação foram as doenças cardiovasculares (10 milhões), seguidas de doenças oncológicas (913090) e diabetes tipo 2 (333714), sendo que estas representam cerca de 40% de todas as mortes globalmente .

Por outro lado, a cadeia de produção de alimentos é responsável por cerca de 26% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e está associada à utilização de 43% do solo livre de gelo e de deserto. Além disso, essa produção é também responsável por cerca de 32% da acidificação terrestre e 78% da eutroficação . A agropecuária é responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) globais. A produção de ração (45%) e fermentação entérica (39%) são as duas principais fontes de emissões do setor, sendo que a produção de carne de vaca e de laticínios representam 41% e 20% dessas emissões, respetivamente.

A produção de carne, leite, ovos e aquacultura utiliza 83% dos terrenos agrícolas em todo o mundo, contribuindo para 58% das emissões de GEEs relacionados com a produção de alimentos. No entanto, estes alimentos representam apenas 18% das calorias e 37% das proteínas ingeridas.

As emissões de GEEs (CO2) associadas à produção de 100 g de proteína de diferentes alimentos são as seguintes :

  • Carne de vaca (para comer): 50 kg;
  • Cordeiro/carneiro: 20 kg;
  • Crustáceos (aquacultura): 18 kg;
  • Carne de vaca (para leite): 17 kg;
  • Queijo: 11 kg;
  • Porco: 7,6 kg;
  • Aves: 12 kg;
  • Peixe (aquacultura): 6 kg;
  • Aves: 5,7 kg;
  • Ovos: 4,2 kg;
  • Tofu: 2 kg;
  • Leguminosas: 0,8 kg;
  • Ervilhas: 0,4 kg.

Um novo relatório do Instituto de Agricultura e Política Comercial dos EUA (IATP) mostrou que em 2017, as 13 maiores empresas produtoras de laticínios emitiram tantos gases com efeitos de estufa (GEEs) como o Reino Unido, a sexta maior economia do mundo. De facto, entre 2015 e 2017, mesmo depois do Acordo de Paris, houve um aumento de 11% nas emissões combinadas das maiores empresas de laticínios, em parte devido à consolidação do setor. Esse aumento correspondeu a 32,3 milhões de toneladas (MtCO2eq) de GEEs, o que equivale a 6,9 milhões de carros conduzidos durante 1 ano. Este problema deve-se em parte ao facto destas empresas não serem obrigadas por lei a publicar ou verificar as suas emissões ou a apresentar planos que ajudem a manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 graus. Menos de metade publicam as suas emissões e nenhuma das 13 principais empresas assumiram o compromisso de reduzir as emissões associadas à produção de laticínios.

Um relatório conjunto da FAO e da Global Dairy Platform concluiu também que “de forma a limitar o aumento de temperatura, o setor dos laticínios terá de reduzir as suas emissões de GEEs e trabalhar para um futuro baixo em carbono. É necessária uma ação imediata e mais ambiciosa”. Só na Europa, por exemplo, para alcançarmos os objetivos de Paris, teremos de diminuir pelo menos em 50% o consumo de carne de ruminantes e também laticínios .

Embora com características nutricionais muito diferentes, uma das alternativas ao leite são as bebidas vegetais como a soja, aveia ou amêndoa, com grandes diferenças no impacto ambiental. Por exemplo, produzir um copo de leite está associado a emissões três vezes superiores comparativamente com qualquer bebida vegetal. Além disso, produzir um copo de leite todos os dias durante um ano necessita de cerca de 650 metros quadrados de terra, o equivalente a 2 campos de ténis, mais do que 10 vezes a terra necessário para produzir bebida de aveia .

Um relatório anterior do IATP em conjunto com a GRAIN já tinha mostrado bem os impactos da produção de carne e leite para o ambiente e a comparação com as principais petrolíferas. De forma a evitarmos um agravamento perigoso das alterações climáticas, estima-se que seja necessário reduzir para 22 kg o consumo global per capita até 2030 e para 16 kg em 2050. No entanto, as empresas de carne continuam a projetar crescimento, o que é totalmente incompatível com o Acordo de Paris e em última instância com a vida no planeta. Algumas das conclusões do relatório:

  • Atualmente, as 5 maiores produtoras de carne e leite são responsáveis por mais emissões de GEEs do que petrolíferas como a Exxon, Shell ou BP.
  • As 20 principais produtoras de carne em todos o mundo emitem mais GEEs do que países como a Alemanha, Canadá, Austrália, Reino Unido ou França.
  • A maior parte destas empresas não declara as suas emissões de GEEs.
  • Ao contrário dos vários setores de energia e transportes, as empresas de carne e leite escapam do escrutínio público sobre os respetivos impactos ambientais.
  • Se quisermos limitar o aquecimento global a 1,5ºC, as emissões globais devem diminuir de 51 para 13 gigatoneladas até 2050.
  • Se todos os outros setores cortarem nas suas emissões, em 30 anos, a agropecuária poderá representar cerca de 80% de todas as emissões de GEEs permitidas.
  • Caso a agropecuária não reduza as suas emissões será virtualmente impossível manter o aumento de temperatura abaixo dos 1,5ºC.
  • Não existe outra forma de evitar problemas graves ambientais sem diminuir a produção e o consumo de carne e leite.

De forma a combatermos alguns dos problemas mais graves atualmente, como a emergência climática, as doenças crónicas e até as zoonoses, teremos inevitavelmente de alterar os nossos hábitos alimentares. Caso mudássemos para um padrão alimentar que excluísse produtos animais haveria uma redução de 76% na utilização de terreno, uma área equivalente ao território dos EUA, China, EU e Austrália juntos, assim como uma diminuição de 49% na emissão de GEEs (6,6 GiTCO2eq), 50% na acidificação e 49% na eutroficação. Além disso, o solo que não seja utilizado para produção de alimentos poderia remover 8,1 GiTCO2eq da atmosfera em cada ano ao longo de 100 anos .

Um estudo estima que com um conjunto de alterações na forma como utilizamos o solo, nomeadamente a agricultura e a gestão da floresta, seria possível contribuir com cerca de 30% ou 15 GtCO2e por ano, da mitigação global necessária em 2050 para se atingir o objetivo de 1,5 graus. Por outras palavras, o setor do solo seria um sumidouro em vez de ser uma fonte de GEEs . Uma das medidas propostas no estudo passa por alterarmos a nossa alimentação para dietas de base vegetal. Mudar de alimentação reduzindo o consumo de produtos animais, em especial carne de ruminantes, tem o potencial de diminuir até 8 GtCO2eq de GEEs por ano. Reduzir o desperdício alimentar poderia mitigar até 4,5 GtCO2eq por ano.

Mesmo que não se retirasse por completo os produtos animais da alimentação, caso 50% da população global reduzisse o consumo de proteína animal para menos de 60g por dia seria possível diminuir 2,2 GtCO2eq por ano. Reduzir para metade o desperdício alimentar diminuiria 2,4 GtCO2eq por ano. Por outras palavras, se 1 em 5 pessoas nos países mais ricos se tornasse quase vegana e desperdiçasse menos um terço da comida que desperdiça atualmente, enquanto os países mais pobres fossem ajudados a preservar as suas florestas e a restaurar os solos degradados, os sistemas de produção de alimentos globais poderiam absorver CO2 em 2050 em vez de contribuírem para a emissão de GEEs como acontece atualmente. Essas alterações também iriam contribuir para dietas mais saudáveis globalmente, preservar a flora e a vida selvagem e melhorar a qualidade da água e do ar. Diminuir o desperdício e reduzir o consumo de carne reduz a necessidade de utilizar solo para produzir ração, além de utilizar menos água e contribuir para uma menor degradação dos solos .

De acordo com o IPCC, Se mudássemos para uma dieta sem produtos animais, em 2050 usaríamos menos terrenos, conseguiríamos regenerar florestas e diminuiríamos cerca de 7,8 GtCO2 por ano. Essa redução seria equivalente à utilização global de energia nuclear. Caso reduzíssemos o consumo de carne e aumentássemos o consumo de leguminosas, diminuiríamos entre 4,3 e 6,4 GtCO2 por ano .

De acordo com o recente relatório do IPCC sobre a utilização de terrenos, os esforços para diminuir as emissões de GEEs e os impactos do aquecimento global serão muito insuficientes sem alterações drásticas na forma como utilizamos os terrenos globalmente, na agricultura e nas dietas humanas. O relatório refere-se às dietas de base vegetal como uma grande oportunidade de mitigar e adaptarmo-nos às alterações climáticas, incluindo uma recomendação específica de se reduzir o consumo de carne vermelha.

No entanto, reduzir o consumo de carne sem fazer o mesmo com o consumo de laticínios poderá ser insuficiente. De acordo com um estudo que procurou identificar o impacto de 9 diferentes dietas de base vegetal nas emissões de GGEs e na utilização de água a partir de 140 países, uma dieta vegana ou de cadeia alimentar baixa são as que têm menor impacto ambiental. Por outro lado, incluir alguma carne de baixo impacto em dietas de base vegetal têm um impacto climático inferior a uma dieta lacto-ovo-vegetariana. Ou seja, a maior parte das dietas de base vegetal têm menor impacto ambiental do que dietas lacto-ovo-vegetarianas, uma vez que os produtos lácteos têm muitas emissões de GEEs. Por outras palavras, reduzir o consumo de produtos animais em geral (incluindo os produtos lácteos) será mais benéfico para o ambiente do que eliminar a carne .

Os efeitos para a saúde dessas alterações seriam também muito significativos. De acordo com o relatório EAT-Lancet, de forma a garantirmos a sustentabilidade da produção de alimentos assim como redução do impacto destes nas doenças crónicas, é preciso levar a cabo uma transformação global do sistema alimentar. A mudança para dietas sustentáveis até 2050 vai necessitar de alterações muito significativas, incluindo uma redução maior do que 50% no consumo global de alimentos pouco saudáveis, tais como carne vermelha e açúcar, e um aumento maior do que 100% no consumo de alimentos saudáveis, como vegetais, frutos, leguminosas e frutos secos. Essas mudanças poderão evitar 10,8-11,6 milhões de mortes por ano, o que corresponde a uma diminuição de 19-23,6%.

Um estudo anterior concluiu que globalmente, adotarmos uma dieta de base vegetal, diminuindo ao máximo os produtos animais, poderia evitar 5,1 milhões de mortes por ano e diminuir 29% de GEEs no caso de uma dieta saudável, 7,3 milhões de mortes e diminuir 45-55% de GEEs no caso de uma dieta vegetariana e 8,1 milhões de mortes e diminuir 63-% de GEEs no caso de uma dieta vegana .

Outro estudo procurou perceber a relação entre a ingestão de uma porção adicional por dia de 15 alimentos e 5 desfechos de saúde assim como 5 aspetos de impacto ambiental relacionados com a agricultura. De acordo com o estudo os alimentos associados a benefícios para a saúde são também aqueles que têm menor impacto ambiental, o que indica que as mesmas alterações alimentares que poderiam diminuir o risco de doenças crónicas, seriam também importantes para atingir os objetivos de sustentabilidade ambiental .

Aquilo que comemos tem um profundo impacto sobre nós, mas principalmente sobre o planeta. Os produtos animais, embora possam ter algum lugar numa dieta saudável e sustentável, terão de ocupar um espaço cada vez menor nas nossas vidas e nos nossos pratos.

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