dieta é considerada um fator de risco importante para a demência. Vários estudos têm mostrado que alguns componentes específicos dos alimentos tais como os ácidos gordos ómega-3, vitamina E e vitaminas do complexo B poderão ter efeitos neuroprotetores (Gardener & Rainey-Smith, 2018Vauzour et al., 2017). No entanto, uma vez que a maioria dos estudos realizados são observacionais, nem sempre é possível estabelecer uma relação de causa efeito entre diferentes alimentos e o risco de demência. De forma a identificar associações mais robustas um estudo analisou a relação entre o metabolismo de diferentes componentes dos alimentos e a microbiota, metabolismo endógeno e efeitos cognitivos. Para isso foram acompanhados 842 participantes com idades superiores a 65 anos durante 12 anos, tendo sido observados os seguintes resultados (González-Domínguez et al., 2021):

  • Os metabolitos resultantes do cacau, café, cogumelos, assim como o metabolismo bacteriano de alimentos ricos em polifenóis (maça, cacau, chá verde, mirtilos, laranjas ou toranjas) estiveram associados a um menor risco de declínio cognitivo;
  • Os metabolitos resultantes de adoçantes artificiais e do álcool estiveram associados a um maior risco de declínio cognitivo.

Nesse sentido, alterações no estilo de vida e na dieta poderão ser decisivos para a prevenção de demência e doenças neurodegenerativas como Alzheimer. Em particular, uma ingestão superior de frutos, vegetais e alimentos vegetais fornecem polifenóis e outros compostos bioativos que poderão ajudar a diminuir o risco de declínio cognitivo relacionado com o envelhecimento (González-Domínguez et al., 2021).

Um estudo prospetivo (Framingham Heart Study) que acompanhou 2801 participantes ao longo de quase 20 anos que procurou analisar a relação entre a ingestão de flavonoides na alimentação e o risco de DADR chegou aos seguintes resultados (Shishtar et al., n.d.):

  • Uma ingestão elevada de flavonóis (ex.: maçãs, peras, cacau e chá) esteve associada a um risco 46% inferior de DADR;
  • Uma ingestão elevada de antocianinas (ex.: mirtilos, morangos e uvas pretas) esteve associada a um risco 76% inferior de DADR;
  • Uma ingestão elevada de polímeros de flavonoides (ex.: maçãs, pêras e chá) esteve associada a um risco 42% inferior de DADR;
  • A associação foi semelhante para o risco de DA, com exceção dos polímeros de flavonoides.

Neste estudo, uma ingestão elevada de flavonoides foi o equivalente a cerca de 7 ½ chávenas de mirtilos ou morangos (antocianinas) por mês, 8 maçãs e pêras por mês (flavonóis) e 19 chávenas de chá por mês (polímeros de flavonoides). O estudo concluiu que a ingestão elevada a longo prazo de flavonoides poderá diminuir o risco de doença de Alzheimer e demências relacionadas, reforçando a importância da dieta para o risco dessas doenças.

Embora uma dieta rica em alimentos e bebidas açucaradas possa contribuir para o desenvolvimento da DA, substituir esses produtos por outros com adoçantes artificiais poderá não oferecer vantagem. Um estudo que incluiu 4372 participantes, mostrou que aqueles que beberam pelo menos um refrigerante com adoçantes artificiais por dia tiveram um risco quase três vezes superior de desenvolver demência e AVC (Pase et al., 2017):

  • Consumo superior de refrigerantes com adoçantes artificiais esteve associado a um risco 196% superior de AVC e um risco 189% superior de doença de Alzheimer.

Outro estudo seccional-cruzado com 4213 participantes com uma idade média de 66 anos, procurou identificar associações entre padrões alimentares e o volume do cérebro, tendo observado os seguintes resultados:

  • Uma melhor qualidade na dieta esteve relacionada com um maior volume do cérebro, da matéria cinzenta, da substância branca e do hipocampo;
  • Uma ingestão superior de vegetais, frutos, frutos secos, cereais integrais e algum peixe, juntamente com um baixo consumo de bebidas açucaradas, esteve associado a um volume superior dos tecidos cerebrais.

O estudo concluiu que uma dieta saudável pode estar associada a volumes superiores dos tecidos cerebrais e que essas alterações estruturais podem contribuir para uma maior saúde do cérebro, diminuindo o risco de doenças neurodegenerativas (Croll et al., 2018).

De acordo com dois grandes estudos prospetivos, a ingestão de vegetais de folha verde, incluindo a couve galega, a couve kale ou os espinafres (entre outros), parecem ser os que mais contribuem para uma diminuição do declínio cognitivo (Morris et al., 2006Kang et al., 2005). Outro estudo prospetivo procurou identificar os componentes específicos destes vegetais que contribuem para esses benefícios, tais como: luteína, vitamina K, nitrato, folato, tocoferol, betacaroteno e kaempferol. Para isso foram acompanhados 960 participantes com idades compreendidas entre os 58 e os 99 anos ao longo de uma média de 4,7 anos. De acordo com os resultados do estudo, a taxa de declínio entre aqueles que consumiram 1 a 2 porções por dia de vegetais de folha verde foi mais baixa, sendo o equivalente a serem 11 anos mais novos comparativamente com aqueles que raramente ou nunca consumiam esses vegetais. Levando em consideração os componentes bioativos dos vegetais de folha verde, o estudo mostrou que o folato, a vitamina K e a luteína parecem ser aqueles que mais contribuem para os efeitos protetores e diminuição do declínio cognitivo (Morris et al., 2018).

Uma dieta de base vegetal, rica em vegetais de folha verde escura e fontes de ómega-3 mas pobre em açúcares adicionados e gorduras saturadas, poderá ser uma forma eficaz de prevenir doenças neurodegenerativas.

Referências:

  1. Gardener SL, Rainey-Smith SR. The Role of Nutrition in Cognitive Function and Brain Ageing in the Elderly. Curr Nutr Rep. 2018 Sep;7(3):139–49.

2. Vauzour D, Camprubi-Robles M, Miquel-Kergoat S, Andres-Lacueva C, Bánáti D, Barberger-Gateau P, et al. Nutrition for the ageing brain: Towards evidence for an optimal diet. Ageing Res Rev. 2017 May;35:222–40.

3. González-Domínguez R, Castellano-Escuder P, Carmona F, Lefèvre-Arbogast S, Low DY, Du Preez A, et al. Food and Microbiota Metabolites Associate with Cognitive Decline in Older Subjects: A 12-Year Prospective Study. Molecular Nutrition & Food Research [Internet]. 2021 [cited 2022 Jan 24];65(23):2100606. Available from: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/mnfr.202100606

4. Shishtar E, Rogers GT, Blumberg JB, Au R, Jacques PF. Long-term dietary flavonoid intake and risk of Alzheimer disease and related dementias in the Framingham Offspring Cohort. Am J Clin Nutr [Internet]. [cited 2020 May 6]; Available from: https://academic.oup.com/ajcn/advance-article/doi/10.1093/ajcn/nqaa079/5823790

5. Pase MP, Himali JJ, Beiser AS, Aparicio HJ, Satizabal CL, Vasan RS, et al. Sugar- and Artificially Sweetened Beverages and the Risks of Incident Stroke and Dementia. Stroke [Internet]. 2017 May 1 [cited 2017 May 3];48(5):1139–46. Available from: http://stroke.ahajournals.org/content/48/5/1139

6. Croll PH, Voortman T, Ikram MA, Franco OH, Schoufour JD, Bos D, et al. Better diet quality relates to larger brain tissue volumes: The Rotterdam Study. Neurology [Internet]. 2018 May 16 [cited 2018 May 21];10.1212/WNL.0000000000005691. Available from: http://www.neurology.org/lookup/doi/10.1212/WNL.0000000000005691

7. Morris MC, Evans DA, Tangney CC, Bienias JL, Wilson RS. Associations of vegetable and fruit consumption with age-related cognitive change. Neurology [Internet]. 2006 Oct 24 [cited 2018 Jan 8];67(8):1370–6. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3393520/

8. Kang JH, Ascherio A, Grodstein F. Fruit and vegetable consumption and cognitive decline in aging women. Ann Neurol. 2005 May;57(5):713–20.

9. Morris MC, Wang Y, Barnes LL, Bennett DA, Dawson-Hughes B, Booth SL. Nutrients and bioactives in green leafy vegetables and cognitive decline: Prospective study. Neurology [Internet]. 2018 Jan 16 [cited 2018 Feb 19];90(3):e214–22. Available from: http://www.neurology.org/lookup/doi/10.1212/WNL.0000000000004815