Vários estudos sugerem que níveis elevados de insulina e de IGF-1 têm um papel importante como fatores de risco independentes de cancro da mama . Nesse sentido, fatores relacionados com a alimentação que contribuam para níveis mais baixos de insulina ou IGF-1, ou que modifiquem os níveis de hormonas sexuais, poderão ter efeitos na incidência de cancro da mama.

Os efeitos benéficos de uma dieta rica em fibra na sensibilidade à insulina e nos níveis de hormonas são conhecidos . Alguns estudos sugerem que a fibra presente nos frutos e nos vegetais possam diminuir o risco de cancro da mama, embora essa associação não seja tão clara relativamente à fibra de outras fontes de alimentos .

Uma meta-análise recente a 24 estudos prospetivos e estudos de caso-controlo mostrou que uma ingestão superior de fibra esteve associada a uma diminuição de 12% no risco de cancro da mama . No entanto, o estudo não esclarece qual o papel de diferentes fontes de fibra na incidência de cancro da mama, assim como quais os efeitos da fibra em relação a diferentes tipos de cancro da mama. Para esclarecer melhor essa relação, foi realizada uma meta-análise a 20 estudos, 1 dos quais um estudo clínico, e observaram os seguintes resultados:

  • A ingestão de fibra total esteve associada a uma diminuição de 8% no risco de cancro da mama;
  • A fibra solúvel esteve associada a um risco 10% inferior de cancro da mama e a fibra insolúvel a um risco 7% inferior;
  • Uma ingestão superior de fibra total esteve associada a um risco inferior de cancro da mama antes (18%) e depois (9%) da menopausa.

O estudo concluiu que uma ingestão superior de fibra esteve associada a uma diminuição do risco de cancro da mama antes e depois da menopausa, especialmente no caso de fibra solúvel .

A ingestão de fibra durante a adolescência poderá também ser protetor em relação ao risco futuro de cancro da mama.  Um estudo que acompanhou 90534 mulheres ao longo de 20 anos mostrou que por cada 10 g de fibra ingerida diariamente na adolescência houve uma diminuição de 13% no risco de cancro da mama, provavelmente ao diminuir os níveis de estrogénio em circulação .

Outro estudo mostrou também que a ingestão de cerca de 3 porções de fruta por dia na adolescência esteve associado a uma diminuição de 25% no risco de cancro da mama .

Também relativamente à sobrevivência do cancro da mama, a ingestão de fibra poderá diminuir o risco de mortalidade. Com base na última revisão dos dados disponíveis, o WCRF/AICR concluiu que existem indicações plausíveis de que consumir soja depois de um diagnóstico de cancro da mama, juntamente com manter um peso saudável, ser fisicamente ativo, consumir alimentos ricos em fibra e limitar o consumo de gorduras saturadas, poderá aumentar as probabilidades de sobrevivência .

A fibra também poderá ter um efeito protetor em relação aos efeitos do álcool no risco de cancro da mama .

Uma das características da dieta ocidental, além de ser muito rica em produtos animais, gorduras saturadas e açúcares livres, é o consumo de farinhas e cereais refinados, aos quais foram retirados a película externa onde se concentram as fibras e muitos dos seus minerais, vitaminas e fitoquímicos. Dessa forma, não só resta um alimento com um índice glicémico muito elevado, como contribui para uma grande carência de fibra que tem a nossa alimentação. Fibra essa que tem inúmeros benefícios para a saúde, mas que também tem um papel fundamental para manter uma microbiota saudável, sendo a principal fonte de energia das bactérias benéficas produtoras de butirato. O butirato é uma molécula produzida pelas bactérias ao se alimentarem de fibras e que além de ser a fonte de energia preferida das células do intestino, tem efeitos anti-inflamatórios no organismo.

Relativamente à importância da fibra e dos cereais integrais, um estudo publicado na Lancet que incluiu revisões sistemáticas e meta-análises a 185 estudos prospetivos e 58 estudos clínicos chegou aos seguintes resultados:

  • Com base nos estudos prospetivos, um consumo superior de fibra esteve associado a uma diminuição de 15-31% no risco de mortalidade total (15%), mortalidade por doença cardiovascular (31%), incidência de doença cardiovascular (24%), incidência de diabetes tipo 2 (16%), incidência de cancro colorretal (16%) e mortalidade por cancro (13%);
  • Com base nos estudos prospetivos, o consumo superior de cereais integrais esteve associado a uma diminuição de 13-33% no risco de mortalidade total (19%), incidência de doença cardiovascular (20%), incidência de diabetes tipo 2 (33%), incidência de cancro colorretal (13%) e mortalidade por cancro (16%);
  • Por cada incremento de 8g de fibra ingerida por dia houve uma diminuição de 5-27% no risco de mortalidade total, doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e cancro colorretal;
  • Por cada incremento de 16g de cereais integrais ingeridos por dia houve uma diminuição de 2-19% no risco de mortalidade total, doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e cancro colorretal;
  • A análise aos estudos clínicos mostrou que um consumo superior de cereais integrais ou fibra esteve associado a uma diminuição de peso, colesterol e pressão arterial;
  • A maior diminuição do risco de doenças crónicas observou-se quando o consumo de fibra foi entre as 25 e as 29g. Doses superiores estiveram associadas a uma diminuição ainda mais significativa do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, cancro coloerretal e cancro da mama.

De acordo com estes resultados, o estudo conclui que um consumo superior de fibra ou cereais integrais está associado a uma diminuição do risco de mortalidade e de doenças crónicas, reforçando assim a recomendação de se substituir cereais refinados por cereais integrais e aumentar o consumo fibra para pelo menos 25-29g por dia, sendo que quantidades superiores poderão ser ainda mais benéficas .

Em todo o mundo, o consumo de fibra é de cerca de 20g por dia. Em Portugal a ingestão média de fibra por dia são 18 g. Na Europa, o maior consumo de cereais integrais dá-se nos países nórdicos. Na Dinamarca, por exemplo, o consumo de cereais integrais é em média 58 g/dia, comparativamente com os EUA onde o consumo é em média inferior a 16 g/dia. Na Suécia, recomenda-se que se consumam 70g/dia de cereais integrais no caso das mulheres e 90 g/dia no caso dos homens.

A fibra pode ser definida como a parte comestível das plantas ou hidratos de carbono análogos que sejam resistentes à digestão e à absorção pelo intestino delgado nos humanos, com completa ou parcial fermentação no intestino grosso. São muitos os seus benefícios para a saúde, sendo que uma dieta ocidental, com muitos produtos refinados e poucos produtos vegetais está geralmente associada a níveis insuficientes de fibra. Alguns dos seus benefícios passam por:

  • Efeitos laxantes e diminuição do tempo do trânsito intestinal.
  • Serve de substrato para a formação de ácidos gordos de cadeia curta (acetato, propionato e butirato).
  • Alguns tipos de fibra são particularmente bons substratos para a formação de butirato.
  • Estimulam o crescimento seletivos de algumas bactérias benéficas no intestino (prebióticos).
  • Diminuem a taxa de absorção do intestino delgado (ex: diminuem a resposta glicémica e de insulina).

Existem diferentes tipos de fibra, podendo ser classificadas como solúveis, insolúveis e amido resistente. Alguns dos benefícios da fibra solúvel (ex: pectinas e mucilagens):

  • Ajuda a baixar os níveis de colesterol e a controlar os níveis de açúcar no sangue.
  • Pode ser fermentada pelas bactérias presentes no intestino grosso.
  • Encontra-se em frutos secos e frescos, flocos de aveia, leguminosas e sementes.

Alguns dos benefícios da fibra inssolúvel (ex: celulose e lignanas):

  • Ajudam no trânsito intestinal.
  • Encontra-se nos cereais integrais, frutos e vegetais.

Alguns dos benefícios do amido resistente:

  • Amidos que resistem à digestão no intestino delgado.
  • É fermentado no intestino grosso e serve de substrato para a formação de butirato.
  • Encontra-se em vários feijões, banana verde, lentilhas, massa arrefecida, flocos de aveia e pão integral.

A fibra (que é um hidrato de carbono) está presente nos alimentos de origem vegetal tais como cereais integrais, vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos e sementes. Fazer uma dieta de base vegetal é a melhor maneira de garantir que ingerimos toda a fibra necessária, juntamente com todos os nutrientes e fitoquímicos presentes nas plantas.

 

Referências:

1.
Chen S, Chen Y, Ma S, Zheng R, Zhao P, Zhang L, et al. Dietary fibre intake and risk of breast cancer: A systematic review and meta-analysis of epidemiological studies. Oncotarget [Internet]. 2016 Nov 5 [cited 2020 Apr 8];7(49):80980–9. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5348370/
1.
Key TJ, Balkwill A, Bradbury KE, Reeves GK, Kuan AS, Simpson RF, et al. Foods, macronutrients and breast cancer risk in postmenopausal women: a large UK cohort. Int J Epidemiol. 2019 01;48(2):489–500.
1.
Farvid MS, Eliassen AH, Cho E, Liao X, Chen WY, Willett WC. Dietary Fiber Intake in Young Adults and Breast Cancer Risk. Pediatrics. 2016 Mar;137(3):e20151226.
1.
Deschasaux M, Zelek L, Pouchieu C, His M, Hercberg S, Galan P, et al. Prospective association between dietary fiber intake and breast cancer risk. PLoS ONE. 2013;8(11):e79718.
1.
Suzuki R, Rylander-Rudqvist T, Ye W, Saji S, Adlercreutz H, Wolk A. Dietary fiber intake and risk of postmenopausal breast cancer defined by estrogen and progesterone receptor status--a prospective cohort study among Swedish women. Int J Cancer. 2008 Jan 15;122(2):403–12.
1.
Werner H, Bruchim I. The insulin-like growth factor-I receptor as an oncogene. Arch Physiol Biochem. 2009 May;115(2):58–71.
1.
Pollak MN, Schernhammer ES, Hankinson SE. Insulin-like growth factors and neoplasia. Nat Rev Cancer. 2004 Jul;4(7):505–18.
1.
Ahern TP, Hankinson SE, Willett WC, Pollak MN, Eliassen AH, Tamimi RM. Plasma C-peptide, mammographic breast density, and risk of invasive breast cancer. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2013 Oct;22(10):1786–96.
1.
Reynolds A, Mann J, Cummings J, Winter N, Mete E, Morenga LT. Carbohydrate quality and human health: a series of systematic reviews and meta-analyses. The Lancet [Internet]. 2019 Jan 10 [cited 2019 Jan 11];0(0). Available from: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(18)31809-9/abstract
1.
Chhim A-S, Fassier P, Latino-Martel P, Druesne-Pecollo N, Zelek L, Duverger L, et al. Prospective association between alcohol intake and hormone-dependent cancer risk: modulation by dietary fiber intake. Am J Clin Nutr [Internet]. 2015 Jul 1 [cited 2017 Sep 18];102(1):182–9. Available from: http://ajcn.nutrition.org/content/102/1/182
1.
Farvid MS, Chen WY, Michels KB, Cho E, Willett WC, Eliassen AH. Fruit and vegetable consumption in adolescence and early adulthood and risk of breast cancer: population based cohort study. BMJ [Internet]. 2016 May 11 [cited 2016 May 14];353:i2343. Available from: http://www.bmj.com/content/353/bmj.i2343
1.
World Cancer Research Fund International/American Institute for Cancer Research. Continuous Update Project Report: Diet, Nutrition, Physical Activity, and Breast Cancer Survivors. 2014. World Cancer Research Fund International/American Institute for Cancer Research; 2014.
1.
Insulin-like growth factor 1 (IGF1), IGF binding protein 3 (IGFBP3), and breast cancer risk: pooled individual data analysis of 17 prospective studies. The Lancet Oncology [Internet]. 2010 [cited 2015 Jun 7];11(6):530–42. Available from: http://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1470204510700954