A relação entre a ingestão de carnes vermelhas e processadas e o risco de doenças crónicas e mortalidade, assim como o impacto ambiental e pegada de carbono, é bastante robusta. Embora a grande maioria seja de natureza observacional, existe um grande número de estudos que mostram essa relação . Essa associação é especialmente evidente no caso do cancro colorretal, tendo a carne processada sido classificada em 2015 como cancerígena para humanos pela IARC e a carne vermelha como provavelmente cancerígena .

Sendo a cardiopatia isquémica a principal causa de morte globalmente, responsável por cerca de 9 milhões de mortes em 2016 , a ingestão elevada de carne poderá aumentar o risco da doença, em parte devido à sua grande concentração de gorduras saturadas e de sódio no caso das carnes processadas .

Uma meta-análise a 13 estudos prospetivos que incluiu 1437989 participantes procurou identificar associações entre a ingestão de carne vermelha, processada e branca e o risco de cardiopatia isquémica . Alguns resultados da meta-análise:

  • Uma ingestão igual ou superior a 50 g/dia de carne vermelha esteve associada a um risco 9% superior de cardiopatia isquémica;
  • Uma ingestão igual ou superior a 50 g/dia de carne processada esteve associada a um risco 18% superior de cardiopatia isquémica.

O estudo concluiu que a ingestão de carne vermelha e processada poderá aumentar o risco de cardiopatia isquémica. Uma porção de carne vermelha pesa cerca de 85 g, aproximadamente do tamanho de um baralho de cartas. Numa refeição típica de uma dieta ocidental facilmente ultrapassam-se esses valores. Alguns dos mecanismos que poderão explicar a associação entre carne vermelha e cardiopatia isquémica:

  • Gordura saturada (aumenta os níveis de LDL);
  • TMAO (a carnitina aumenta os níveis de TMAO, a qual poderá promover a aterosclerose);
  • Ferro heme (o ferro heme poderá aumentar os níveis de inflamação);
  • Sódio (a carne processada tem níveis elevados de sódio, o que contribui para hipertensão).

Um estudo com 19408 participantes do UK Biobank procurou pela primeira vez associações entre a ingestão de carne vermelha e medidas imagiológicas da saúde cardiovascular, o que poderá ajudar a perceber melhor os mecanismos relacionados com o risco de doença cardiovascular. Foram analisados 3 tipos de medidas cardiovasculares:

  • Ressonâncias magnéticas de medidas da função cardíaca utilizadas na prática clínica tais como o volume dos ventrículos e a função bombeadora dos ventrículos;
  • Medidas relacionadas com a forma e textura do coração, as quais são indicadores da saúde do músculo cardíaco;
  • Elasticidade dos vasos sanguíneos.

A análise foi ajustada para outros fatores confundidores que poderiam influenciar os resultados tais como idade, sexo, educação, fumar, álcool, exercício, hipertensão, colesterol elevado, diabetes e IMC.

De acordo com os resultados do estudo, uma ingestão superior de carne vermelha e processada esteve associada a priores medidas imagiológicas da saúde cardiovascular, entre todas as medidas analisadas. Especificamente, aqueles que fizeram uma maior ingestão de carne vermelha tinham menores ventrículos, pior função cardíaca e artérias mais rígidas, os quais são todos marcadores de pior saúde cardiovascular. Essas associações não eram totalmente explicadas pelos efeitos da hipertensão, colesterol elevado, diabetes e obesidade, o que sugere que outros fatores possam contribuir para a relação entre carne vermelha e doença cardiovascular. O estudo foi apresentado num congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Anteriormente, um estudo concluiu que substituir carne vermelha por alimentos vegetais de qualidade como leguminosas, frutos secos ou soja poderá diminuir o risco de doença coronária . O estudo procurou conhecer os efeitos da carne vermelha para o risco de doenças cardiovasculares comparativamente com outras fontes de proteína. Foram usados os dados a partir de uma coorte de 43272 homens acompanhados ao longo de 30 anos. Alguns resultados do estudo:

  • Cada porção diária de carne vermelha total, carne vermelha e carne processada esteve associada a um risco 12%, 11% e 15% superior de doença coronária, respetivamente;
  • Comparativamente com a carne vermelha, uma porção diária de fontes combinadas de proteína vegetal, incluindo frutos secos, leguminosas e soja esteve associada a um risco 14% inferior de doença coronária. Esse risco foi ainda menor (18%) no caso de homens com mais de 65 anos e quando comparado com carne processada (17%);
  • Substituir carne vermelha por cereais integrais e produtos lácteos e carnes processadas por ovos, esteve também associado a uma diminuição do risco de doença coronária.

Fig 1

Estudos anteriores chegaram a resultados semelhantes. Uma análise a 6 estudos prospetivos mostrou que 2 porções adicionais por semana de carne vermelha estiveram associadas a um risco 3% superior de doenças cardiovasculares. No caso de carne processada, o risco foi 7% superior .

Uma meta-análise a 17 estudos prospetivos mostrou que 1 porção por dia de carne vermelha total esteve associada a um risco 19% superior de mortalidade por doença cardiovascular .

Um estudo prospetivo com 409885 participantes mostrou que o risco de doença cardiovascular isquémica foi 19% superior por cada incremento de 100g/dia de carne vermelha ingerida .

Um estudo prospetivo de grandes dimensões que acompanhou 131342 participantes ao longo de 32 anos, concluiu que comer mais proteína vegetal está associado a um risco inferior de mortalidade (10%) e comer mais proteína animal está associado a um risco superior de mortalidade (8%), especialmente entre adultos com pelo menos um comportamento pouco saudável, como fumar, beber álcool ou ser sedentário .

Uma dieta de base vegetal rica em alimentos vegetais de qualidade como leguminosas, frutos secos, soja, cereais integrais, legumes e fruta, diminuindo ou evitando a ingestão de carne vermelha, é uma forma eficaz de diminuir o risco de doenças cardiovasculares e outras doenças crónicas.

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