Existem dois grandes estudos prospetivos que avaliam os efeitos para a saúde das dietas de base vegetal (incluindo veganas): o European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC), na Europa e o Adventist Health Study 2 (AHS-2), a decorrer nos EUA.

O AHS-2 começou em 2002 com o objetivo de investigar os efeitos da dieta e outros fatores de estilo de vida no risco de cancro. A população estudada são cerca de 96000 Adventistas do Sétimo Dia. Os membros desta Igreja acreditam que os nossos corpos são templos sagrados e que devem ser alimentados com os alimentos mais saudáveis. O seu padrão alimentar baseia-se no livro bíblico Levítico e enfatiza alimentos vegetais completos como leguminosas, frutos, vegetais, frutos secos e cereais integrais ao mesmo tempo que desencoraja o consumo de produtos animais o mais possível. Além disso abstêm-se de tabaco e de álcool. Nesse sentido, uma grande parte dos Adventistas fazem uma dieta de base vegetal saudável. Cerca de metade desta população faz uma alimentação omnívora, mas com baixo consumo de carne .

As características únicas desta população relativamente aos seus hábitos alimentares e estilo de vida, representam uma oportunidade especial para se estudarem os efeitos da dieta no risco de várias doenças crónicas e das dietas de base vegetal em particular. Embora existam diferenças sobre o consumo ou não de produtos animais, todos tendem a fazer uma dieta cuidada e um estilo de vida saudável. Os vários estudos que foram realizados anteriormente sugerem que os Adventistas na região estudada (Loma Linda, EUA), têm um risco inferior de vários cancros, doença cardiovascular e diabetes. Quando comparado com a população geral da Califórnia, têm também uma esperança de vida maior (vivem em média mais 4,4 anos no caso das mulheres e mais 7,3 anos no caso dos homens) .

Entre os Adventistas, uma dieta vegetariana ou vegana está associada a várias vantagens para a saúde, mesmo quando comparado com dietas omnívoras saudáveis. A ingestão de carne pelos Adventistas tem estado associada a um risco superior de cancro do cólon e doenças cardiovasculares . Os resultados do AHS-2 mostram também que os Adventistas vegetarianos têm IMC menores, menor prevalência de síndrome metabólica, diabetes e hipertensão, menor risco de alguns cancros e de mortalidade, comparativamente com Adventistas omnívoros .

Um estudo mais recente comparou a mortalidade e a incidência de cancro entre os Adventistas incluídos no AHS-2 e a população em geral nos EUA representada nos estudos NLMS e SEER. Foram controladas as variáveis da idade, etnia, sexo, educação e tabagismo. Alguns resultados do estudo:

  • Comparativamente com a população em geral, os Adventistas do AHS-2 tiveram um risco 30% inferior de todos os cancros, 30% inferior de cancro da mama, 16% inferior de cancro colorretal, 50% inferior de cancro retal e 30% inferior do pulmão.
  • Comparativamente com a população em geral, os Adventistas do AHS-2 tiveram um risco 33% inferior de mortalidade total (aos 65 anos) e 22% inferior de mortalidade total (aos 85 anos). Tiveram também um risco 10% inferior de mortalidade por cancro e um risco 40% (aos 65 anos) e 28% (aos 85 anos) inferior de mortalidade por outras causas.

O estudo conclui que os Adventistas do AHS-2 têm um risco inferior de mortalidade (33%) e cancro (30%) comparativamente com a população em geral e que esses efeitos poderão estar relacionados com o estilo de vida e alimentação. Os autores sugerem também que adotar os hábitos de estilo de vida e alimentação dos Adventistas poderá beneficiar a população em geral na prevenção de cancro e diminuição da mortalidade .

Estes resultados são consistentes com resultados dos estudos anteriores que mostraram uma esperança de vida superior e menor risco de cancro entre os Adventistas comparativamente com a população da Califórnia. Esses resultados são observados também em comunidades Adventistas de outros países . As escolhas de estilo de vida são uma explicação plausível, uma vez que estes contrastes aumentam quando se leva apenas em consideração os Adventistas vegetarianos . Os mecanismos responsáveis por estes efeitos poderão estar relacionados com os efeitos adversos do consumo excessivo de carne, assim como com os efeitos protetores dos fitoquímicos presentes nos frutos, vegetais, frutos secos e leguminosas consumidos pelos vegetarianos em grandes quantidades.

Outros resultados observados no AHS-2:

  • Comparativamente com omnívoros, os veganos tiveram um risco 42% inferior de doenças cardiovasculares (homens) e os vegetarianos tiveram um risco 23% inferior de doenças cardiovasculares (homens) ;
  • Comparativamente com omnívoros, os veganos tiveram um risco 75% inferior de hipertensão e os vegetarianos tiveram um risco 55% inferior de hipertensão ;
  • Comparativamente com omnívoros, os veganos tiveram um risco 62% inferior de diabetes tipo 2 e os vegetarianos tiveram um risco 38% inferior de diabetes tipo 2 ;
  • Comparativamente com omnívoros, os vegetarianos tiveram um risco 52% inferior de morte por doença renal .

A dieta dos Adventistas pode ser considerada um bom modelo para a prevenção de doenças crónicas, sendo baseada no consumo de produtos vegetais de qualidade como vegetais, frutos, cereais integrais e leguminosas. O consumo de produtos animais quando incluído é feito com moderação, além de se absterem de tabaco e bebidas alcoólicas. Por algum motivo, a região de Loma Linda, cuja população é Adventista do Sétimo Dia, faz parte das cinco Blue Zones, as regiões com mais centenários em todo o mundo. Por motivos religiosos ou não, cuidar do corpo como se fosse um templo sagrado parece ser bom para a saúde e acrescentar anos de vida.

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