6 recomendações atualizadas para a prevenção do cancro

Hoje é cada vez mais claro: a melhor forma de combatermos doenças como o cancro ou as doenças cardiovasculares é pela prevenção. Temos atualmente suficiente conhecimento acerca da relação entre cancro e estilo de vida para serem feitas recomendações que permitem reduzir muito significativamente o risco de cancro. As principais instituições de saúde pública relacionadas com o cancro baseiam as suas recomendações em princípios comuns. De acordo com o relatório publicado pela ação conjunta da  WCRF/AICR, já podemos com bastante segurança orientar as nossas escolhas com 10 recomendações que podem evitar cerca de 30 a 40% de todos os cancros

(American Institute for Cancer Research & World Cancer Research Fund, 2007).

Estas recomendações baseiam-se nas evidências mais convincentes nesta altura. No entanto, existem muitas outras que por ainda não serem inteiramente conclusivas não servem de base para uma recomendação médica baseada em evidência científica. Convenhamos: se as que existem e que são bem fundamentadas já fossem bem conhecidas por todos nós e aplicadas nas nossas vidas, já seria um grande avanço. Mas podemos ir mais longe e incluir aqueles dados que, não sendo já conclusivos, são fatores de risco prováveis na prevenção do cancro. De facto, não podemos esperar por todas as certezas absolutas antes de tomarmos medidas na prevenção, correndo o risco de o fazermos quando já é tarde demais. Devemos por isso, aplicar o princípio da precaução quando o que está em causa são valores como a saúde e a qualidade de vida.

prudenza

De acordo com a informação que encontramos na página da UE acerca da segurança dos consumidores, “o princípio da precaução permite reagir rapidamente face a um possível risco para a saúde humana, animal ou vegetal, ou quando necessário para a proteção do ambiente. Na realidade, caso os dados científicos não permitam uma avaliação completa do risco, o recurso a este princípio permite, por exemplo, impedir a distribuição ou mesmo retirar do mercado produtos susceptíveis de serem perigosos“.

Na maior parte dos casos, para salvaguardar interesses económicos e de liberdades individuais, um produto só é retirado do mercado caso seja provado que representa perigo para a saúde. Até esse momento estará disponível para os consumidores, mesmo que não se conheçam todas as consequências para a saúde a longo prazo. Esta situação levou a que a OMS emitisse recentemente um relatório que nos dá conta do grande desconhecimento que existe em relação a centenas de substâncias presentes em vários produtos de utilização diária.

Embora o conceito do princípio da precaução seja melhor entendido quando falamos de toxicologia e saúde ambiental, não é tão comum aplicá-lo à nutrição e à prevenção do cancro. Uma vez que os processos de investigação que envolvam hábitos alimentares acontece de forma muito demorada assim como muitas vezes existe um grande compasso de espera entre a exposição a fatores de risco e um diagnóstico de cancro, poderá ser  vantajoso aplicarmos o que se sabe, mesmo que existam algumas dúvidas, desde que se verifique uma situação de probabilidade média ou elevada (Blumberg et al., 2010).

Um novo estudo, publicado no Journal of the American College of Nutrition, sugere 6 recomendações para a prevenção do cancro, levando em consideração não só as que já se conhecem por se basearem em evidências convincentes, mas também outras em que as evidências são muito sugestivas se não mesmo conclusivas (Gonzales et al., 2014). Estas recomendações são baseadas no relatório do WCRF/AICR assim como em evidências não mencionadas pelo relatório. Em termos gerais, as recomendações vão no sentido de uma dieta de base vegetal (vegetais, frutos, cereais integrais e leguminosas) por estar associada a um risco inferior de cancro assim como de doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão. As recomendações que fazem parte deste novo estudo são as seguintes:

  1. Laticínios – reduzir ou evitar o consumo destes produtos poderá diminuir o risco de cancro da próstata.
  2. Bebidas alcoólicas – reduzir ou evitar o consumo de álcool poderá reduzir o risco dos cancros da boca, faringe, laringe, esófago, cólon e reto e mama.
  3. Carnes vermelhas e processadas – evitar estes produtos pode reduzir o risco de cancro colo-retal.
  4. Carnes cozinhadas a altas temperaturas – evitar grelhar ou fritar carnes (carne vermelha, aves e peixe) a altas temperaturas pode reduzir o risco dos cancros do cólon, reto, mama, próstata, rim e pâncreas.
  5. Soja – o consumo de produtos de soja durante a adolescência pode reduzir o risco de cancro da mama em idade adulta. Os produtos de soja podem também reduzir o risco de recidiva e mortalidade em mulheres tratadas ao cancro da mama.
  6. Frutos e vegetais – enfatizar os frutos e vegetais na dieta provavelmente reduz o risco de vários tipos de cancro.

Considerações e fundamentos para cada uma das recomendações:

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1. LATICÍNIOS

Evidências:

De acordo com o relatório do WCRF/AICR, embora os resultados não sejam ainda conclusivos, dietas ricas em cálcio são uma causa provável de cancro da próstata. Os dados sugerem que o leite e produtos lácteos aumentam o risco de cancro através dos efeitos do consumo elevado de cálcio e/ou níveis elevados de IGF-1.

No estudo Health Professionals Follow-Up Study, os homens que consumiram 2 porções de leite por dia tiveram um risco 60% superior de cancro da próstata quando comparados com aqueles que não consumiram nenhuma (Giovannucci et al., 1998).

Uma meta-análise de 11 estudos conclui que o consumo mais elevado de laticínios está relacionado a um risco 68% superior de cancro da próstata (Qin et al., 2004).

O estudo EPIC, envolvendo mais de 142000 homens mostrou um aumento de 22% no risco de cancro da próstata em homens que consumiam uma média de 27 g de proteína de produtos lácteos diariamente, quando comparados com aqueles que consumiam uma média de 10 g. Um copo de leite magro contém 8,4 g de proteína. Os investigadores estimam que cada 35 g de proteína de produtos lácteos consumidos diariamente pode aumentar o risco de cancro da próstata em 32%. Tanto o cálcio como a proteína dos produtos lácteos poderão estar associados ao aumento de risco deste cancro (Allen et al., 2008).

Mecanismos:

Alguns dos mecanismos pelos quais os laticínios podem contribuir para o aumento de risco de cancro da próstata incluem:

  • A capacidade de uma dose oral de cálcio elevada inibir a ativação da vitamina D (Giovannucci et al., 2006). Alguns estudos atribuem à vitamina D um fator protetor em relação ao cancro da próstata (Holick, 2006). Ao ser produzida através da ação dos raios solares na pele, a vitamina D precisa de ser ativada nos rins e no fígado. Uma dose oral de cálcio elevada inibe este processo de ativaçãoO fosfato presente nos produtos lácteos também diminui a ativação de vitamina D.
  • A tendência do leite em aumentar os níveis de IGF-1 no sangue (Holmes et al., 2002). Alguns estudos associam os níveis elevados de IGF-1 no sangue com um risco maior de vários tipos de cancro.

Algumas considerações:

  • Limitar as gorduras saturadas e o colesterol presente nos laticínios poderá diminuir o risco de doença cardiovascular.
  • Limitar ou evitar produtos lácteos poderá reduzir o contributo em cálcio para aqueles que dependem exclusivamente destes produtos como fonte desse mineral.
  • O consumo de cálcio está associado a um risco inferior de cancro colorretal (Cho et al., 2004).
  • Um consumo elevado de cálcio (ou leite) não está relacionado com uma melhoria na saúde óssea (Feskanich et al., 2003).
  • O cálcio é essencial para a nossa saúde. Além dos laticínios, o cálcio pode ser obtido a partir de: vegetais de folha verde, leguminosas, leites vegetais fortificados.

2. BEBIDAS ALCOÓLICAS

Evidências:

De acordo com as evidências disponíveis, a Agência Internacional da Pesquisa sobre o Cancro classificou o etanol como uma substância cancerígena para os humanos (IARC Working Group on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans et al., 2010). Não existe diferença no tipo de bebida alcoólica, uma vez que todas são constituídas por etanol. De acordo com alguns estudos, cerca de 10% de todos os cancros nos homens e 3% nas mulheres podem ser atribuídos o consumo de álcool. No entanto, perante estes factos, 1 em cada 5 pessoas não sabe que o seu consumo pode causar cancro. Segundo o relatório da AICR/WCRF, existem evidências convincentes suficientes para afirmarmos que o consumo de álcool aumenta o risco de cancro da mama, colo-retal (homens), esófago, boca, faringe e laringe. Provavelmente aumenta o risco de cancro colo-retal (mulheres) e do fígado.

Uma revisão recente de 61 estudos realizada pelo IARC mostrou que consumidores moderados (2 a 3 bebidas por dia) tiveram um risco 21% superior de cancro colo-retal quando comparados com não-consumidores ou consumidores ocasionais. O risco era ainda maior em consumidores mais frequentes. Esta meta-análise conclui que o consumo de mais do que uma bebida alcoólica por dia tem uma relação forte com um maior risco de cancro colo-retal (Fedirko et al., 2011).

A AICR, em linha com outras organizações de saúde, recomenda que caso se beba não se ultrapassar uma bebida por dia para as mulheres e duas bebidas para os homens. No que diz respeito ao cancro da mama, a AICR descobriu que qualquer quantidade de álcool aumenta o risco. Por cada bebida comum diária parece haver um aumento de 11% de risco de cancro da mama pós-menopausa. Um estudo envolvendo mais de 320 000 mulheres sugere que duas ou mais bebidas por dia aumenta 41% a possibilidade de desenvolver cancro da mama .

Mecanismos:

Alguns dos mecanismos pelos quais as bebidas alcoólicas podem contribuir para o aumento de risco de cancro incluem:

  • Metabólitos do etanol, tal como o acetildeído.
  • Peroxidação dos lípidos.
  • Produção de radicais livres.
  • Interferência com o metabolismo do folato .

Algumas considerações:

  • A maior parte das evidências sugere que o tipo de bebida alcoólica não é importante no risco de cancro; o fator de risco é o próprio etanol.
  • Uma bebida por dia aumenta o risco de cancro da mama, mas a mesma quantidade tem uma associação mais fraca com outros tipos de cancro.
  • Evitar as bebidas alcoólicas tem um fator preventivo superior ao consumo moderado em relação a outros problemas associados: cirrose, carcinoma hepatocelular, pancreatite, complicações na gravidez, obesidade, acidentes e suicídio.
  • consumo moderado de álcool (1 bebida para as mulheres e 2 para os homens por dia) está associado a uma redução no risco de eventos cardiovasculares e doença de Alzheimer.

3. CARNES VERMELHAS E PROCESSADAS

Evidências:

De acordo com o relatório da WCRF/AICR, existe uma relação convincente entre o consumo de carnes vermelhas e processadas e o risco de cancro colo-retal. Em relação a outros tipos de cancro ainda não existem provas convincentes para podermos ter uma ideia final mas ainda assim existem indicadores sugestivos de que o consumo de carnes vermelhas e processadas possam estar associado a um risco superior de vários cancros:

  • Esófago
  • Pulmão
  • Pâncreas
  • Endométrio
  • Estômago
  • Próstata

Uma meta-análise de estudos prospetivos cujos resultados são consistentes e dependentes da dose, conclui que por cada 120 g de carne vermelha consumida diariamente existe um aumento de 28% no risco de cancro colo-retal . Em relação às carnes processadas, uma meta-análise de 5 estudos conclui que por cada 50 g diários consumidos, o risco aumenta em 21% de cancro colo-retal.

Um novo estudo desenvolvido pela Harvard (Harvard’s Nurses’ Health Study II) procurou perceber a relação entre o consumo de carnes vermelhas em idades jovens e o risco de cancro da mama. Foram incluídas mais de 88000 mulheres na fase anterior à menopausa, seguidas ao longo de 20 anosDe acordo com os resultados, o consumo de carnes vermelhas está associado a um aumento de 22% no risco de cancro da mama. Cada porção diária adicional de carne vermelha está associado a um aumento de 13% no risco de cancro da mama .

Mecanismos:

Alguns dos mecanismos pelos quais as carnes vermelhas e processadas podem contribuir para o aumento de risco de cancro incluem:

  • Aminas Heterocíclicas e Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos: Quando as carnes dos músculos de animais é exposta a temperaturas altas, formam-se dois tipos de compostos altamente cancerígenos chamados aminas heterocíclicas (HCA) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH).
  • IGF-1: A proteína completa e os alimentos com um índice glicémico alto contribuem para o aumento dos níveis de IGF-1. Níveis elevados desta hormona de crescimento estão associados ao risco superior de vários tipos de cancro.
  • Metionina: Este aminoácido está presente em grande quantidades nos alimentos de origem animal. As células de cancro têm uma dependência absoluta deste aminoácido: na sua ausência morrem, ao contrário das células saudáveis que conseguem sobreviver sem ele.
  • Colesterol: Um metabólito do colesterol (27-hidroxicolesterol) comporta-se como o estrogénioestimulando o crescimento de cancros dependentes desta hormona, tal como o da mama.
  • Ferro Heme: O ferro heme presente na carne vermelha está relacionado com a formação de compostos N-nitroso .
  • Nitritos: conservante utilizado nas carnes processadas, produz nitrosaminas .
  • Carnitina e Colina: presentes em grandes quantidades produtos de origem animal, são metabolizados por bactérias nos intestinos, transformados em N-óxido de trimetilamina (TMAO), a qual poderá aumentar o risco de doença cardiovascular e contribuir para um aumento dos níveis inflamatórios.

Algumas considerações:

  • Além dos efeitos na redução de risco de cancro colo-retal, evitar carnes vermelhas e processadas poderá reduzir o risco de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
  • A carne vermelha é uma fonte concentrada de proteína, ferro e zinco. No entanto, consumos adequados destes nutrientes podem ser facilmente conseguidos em dietas de base vegetal bem diversificadas.

4. CARNES COZINHADAS A ALTAS TEMPERATURAS

Evidências:

Quando as carnes dos músculos de animais é exposta a temperaturas altas, formam-se dois tipos de compostos altamente cancerígenos chamados aminas heterocíclicas (HCA) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH). Isto resulta do contacto da carne (ou do peixe) com uma chama (como nos churrascos) ou superfícies muito aquecidas.

National Toxicology Program do Departamento de Saúde dos EUA refere 4 aminas heterocíclicas (HCAs) como provavelmente cancerígenas em humanos no seu 11º Relatório em Carninogéneos. Estes compostos estão associados aos cancros do cólon e do reto, com associações mais fracas com os cancros da mama, próstata, rim e pâncreas.

Cozinhar carnes a grandes temperaturas faz com os seus aminoácidos e a creatina (presente nas fibras musculares e cérebro) reajam e formem aminas heterocíclicas. A temperatura é o fator mais importante para a formação destes químicos. Fritar, grelhar e grelhar a carvão produzem as quantidades maiores por usarem temperaturas muito altas. Cozinhar no forno corresponde a uma concentração inferior de HCAs. Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos correspondem a um grupo de mais de 100 químicos diferentes formados quando alimentos tais como carnes ou peixes são grelhados sobre uma chama, o que resulta em gordura a escorrer para o fogo. Esta gordura em contacto com a chama vai libertar PAHs, que se fixam na superfície do alimento. Quanto mais quente for a fonte de calor, maior o nível de contaminação.

Mecanismos:

As HCAs são gentóxicas e mutagénicas. Quando consumidas podem romper a síntese de ADN.

Algumas considerações:

  • Evitar carnes grelhadas, fritas e cozinhadas a altas temperaturas pode reduzir o consumo de gorduras saturadas e de colesterol, diminuindo o risco de doença cardiovascular.
  • Marinar as carnes com ervas aromáticas como o rosmaninho pode diminuir a formação destes compostos ao serem cozinhadas.
  • Combinar carnes com crucíferas poderá limitar em 20% a formação de aminas heterocíclicas e diminuir a sua atividade cancerígena .

5. PRODUTOS DE SOJA

Evidências:

Durante algum tempo não se sabia se a soja seria segura para doentes com cancro da mama. Desde 2009 que têm sido publicados vários estudos que confirmam os benefícios da soja na prevenção e sobrevivência ao cancro da mama. Um artigo recente da American Cancer Society confirma  estes dados e conclui que o consumo de soja não representa risco para o cancro da mama e pode inclusive contribuir para reduzir a probabilidade de se ter a doença.

Mulheres chinesas que consumiram mais do que 11,3 g de proteína da soja diariamente durante a adolescência, quando comparado com um consumo inferior a 2,7 g tiveram uma redução de 43% no risco de cancro da mama antes da menopausa em idade adulta. O equivalente a 1 chávena de leite de soja, meia chávena de tofu ou meia chávena de feijões de soja cozinhados contém aproximadamente 10 g de proteína de soja. O mesmo estudo mostrou uma redução de 59% no risco de cancro da mama antes da menopausa em mulheres que consumiram mais de 12,8 g de proteína de soja diariamente durante a idade adulta, quando comparado com 4,9 g ou menos .

Um estudo sugere que o consumo diário de mais de 122,2 g de soja (quando comparado com menos de 45,7 g) está relacionado com uma redução de 64% no risco de cancro da mama antes e depois da menopausa. Para mulheres coreanas com tumores com recetores de estrogénio e progesterona positivos depois da menopausa, a redução de risco foi de 92% .

Um estudo prospetivo de grandes dimensões sobre o papel da soja na recidiva e na sobrevivência de cancro da mama mostrou que 11 g de proteína de soja consumidos diariamente reduziu a mortalidade e recidiva em cerca de 32%, antes e depois da menopausa, em mulheres chinesas com recetores de estrogénio positivos ou negativos, independentemente de estar a fazer tratamento com Tamoxifen .

No estudo mais extenso até à data, uma meta-análise que incluiu quase 10000 doentes com cancro da mama que consumiam pelo menos 10 mg de isoflavonas diariamente, mostrou uma diminuição de 25% no risco de recidiva. Este resultado foi observado em mulheres asiáticas e caucasianas sendo mais evidente em sobreviventes com cancro de recetores de estrogénio negativo e de recetores de estrogénio positivo a tomar tamoxifen .

O estudo Women and Healthy Eating and Living realizado com 3088 sobreviventes de cancro da mama ocidentais, mostrou que com o aumento no consumo de isoflavonas o risco de mortalidade diminuiu. O estudo conclui que tomando em conta todas as evidências recentes, não se justifica os clínicos continuarem a recomendar que não se consuma soja em doentes com cancro da mama .

Outro estudo realizado em populações ocidentais, o Life After Cancer Epidemiology, observou 1954 mulheres em fase pós-menopausa com cancro da mama. Aquelas que consumiram mais dos dois tipos de isoflavonas encontradas na soja: a daidzeína e a glicetina, mostraram uma redução no risco de recidiva, quando comparadas com aquelas que não consumiam isoflavonas. Houve uma redução de cerca de 60% na recidiva em mulheres tratadas com tamoxifen que tiveram um consumo mais elevado de daidzeína (mais de 1453 microgramas por dia).

Mecanismos:

  • Ações estrogénicas e antiestrogénicas: As isoflavonas têm uma ação estrogénica fraca. Ao ligarem-se aos recetores de estrogénio modificam a expressão de certos genes dessas células. Existem dois tipos de recetores de estrogénio (ERs): alfa (ERa) e beta (ERb). O ERa está associado à proliferação e progressão do cancro da mama. O ERb por outro lado está associado a efeitos protetores, com efeitos inibidores no crescimento do tumor. As isoflavonas, de um modo geral, possuem maior afinidade com o ERb, enquanto o estradiol 17-beta tem maior afinidade com o ERa. Devido a estas características seletivas, as isoflavonas têm dessa forma efeitos estrogénicos e antiestrogénicos.
  • Em estudos de laboratório, a genisteína e a daidzeína desaceleraram o crescimento de células de cancro e evitaram a formação de tumores.
  • genisteína diminui o crescimento do tumor e induziu a apoptose das células de cancro da próstata.
  • As isoflavonas parecem evitar o desenvolvimento do cancro funcionando como antioxidantes, reduzindo a inflamação e inibindo a ativação de proteínas que promovem o crescimento das células.
  • Alguns estudos em laboratório sugerem que as isoflavonas têm efeitos antiangiogénicos.

Algumas considerações:

  • Os produtos de soja podem substituir o consumo de carnes e produtos lácteos e com isso reduzir o risco de doença cardiovascular .
  • Os produtos de soja poderão melhorar a saúde óssea e diminuir o risco de fratura óssea em mulheres .
  • Quando usada em grandes quantidades, a proteína de soja isolada ou concentrada (como encontrada nos suplementos de proteína de soja ou na soja texturizada) poderá aumentar os níveis de IGF-1, tal como acontece no consumo de produtos lácteos, sugerindo que se deva optar pelos produtos de soja tradicionais (tofu, leite de soja, tempeh, miso, edamame) .
  • As isoflavonas inibem a atividade da tiróide peroxidase, uma enzima necessária para a síntese da hormona da tiróide. No entanto, de acordo com os estudos disponíveis, consumos elevados de isoflavonas não parecem aumentar o risco de hipotiroidismo desde que haja um consumo adequado de iodo .

6. FRUTOS E VEGETAIS

Evidências:

Os frutos e vegetais contêm fibra e fitoquímicos (incluindo antioxidantes) que mostraram diminuir o risco de cancro. De acordo com o WCRF/AICR vários tipos de vegetais e frutos podem reduzir o risco de cancro de vários tipos.

O estudo EPIC seguiu 25623 homens e mulheres gregos durante cerca de 7,9 anos, encontrando uma relação inversa significativa entre o consumo de vegetais e frutos e o risco de cancro .

Uma meta-análise de 32 estudos mostrou que o consumo mais elevado de vegetais estava associado a uma diminuição de 64% no risco de cancro do esófago. O consumo de frutos mostrou uma diminuição de 67% quando comparados com um consumo inferior .

Outra meta-análise de 35 estudos descobriu que um consumo elevado de vegetais crucíferos estão associados a uma diminuição de 18% no risco de cancro colo-retal . Outros estudos sugerem que as crucíferas poderão reduzir o risco de vários cancros, tais como o do pulmão e do estômago . Em relação ao cancro da próstata, uma meta-análise de 13 estudos descobriu que o consumo de crucíferas pode estar associado a uma diminuição no risco desse cancro .

Uma análise de 8 estudos sugere que mulheres com um consumo superior de carotenóides diminuíram o risco de cancro da mama em 19%, quando comparado com consumos baixos. Uma meta-análise de 15 estudos prospetivos descobriu que um consumo superior de frutos e vegetais combinados levou a uma diminuição de 11% no risco de cancro da mama .

No caso do cancro do estômago, aqueles que consomem grandes quantidades de produtos de tomate reduziram o risco em 27%, de acordo com uma meta-análise de 21 estudos . O consumo de alho e vegetais da mesma família também poderão reduzir o risco de cancro do estômago .

Uma revisão da relação entre padrões alimentares e o cancro do estômago descobriu que aqueles cujas dietas eram compostas de grandes quantidades de carne e gordura (uma com pouca quantidade de frutos e vegetais) mostrou um risco duas vezes superior quando comparados com indivíduos que faziam uma dieta saudável/prudente com frutos e vegetais.

Um estudo recente analisou os hábitos de alimentação de mais de 65000 habitantes do Reino Unido entre 2001 e 2013, concluindo que quanto mais vegetais e frutos consumiram, apresentaram menos probabilidades de morrer em qualquer idade. De acordo com os resultados do estudo, por cada porção diária de vegetais e frutos adicional existe uma diminuição no risco de cancro e doença cardiovascular . No entanto, a maior proteção e diminuição do risco acontece a partir das 7 porções, o que pode significar que as 5 porções sejam insuficientes

Mecanismos:

São várias as características dos frutos e vegetais que poderão contribuir para as suas propriedades quimiopreventivas. Uma classe especial de substâncias chamadas de fitoquímicos são responsáveis por uma grande parte dessas propriedades. Principalmente os fitoquímicos, mas não só,  interferem em inúmeros mecanismos biológicos do cancro, tais como: a inflamação, a angiogénese, a reparação do ADN, a expressão de genes, a apoptose, entre outros. Os antioxidantes protegem as células das espécies reativas do oxigénio.

Alguns componentes específicos presentes em alimentos específicos, tais como os glucosinolatos (precursores dos isotiocianatos e indóis) presentes nos vegetais crucíferos destacam-se pelas suas propriedades quimiopreventivas capazes de induzir a produção de enzimas de fase II. Alguns componentes presentes na soja, chá verde, açafrão-das-Índias, uvas, tomates e outros alimentos vegetais têm a capacidade de regular a apoptose  e também diminuir a inflamação, ambos mecanismos fundamentais para o desenvolvimento do cancro.

Algumas considerações:

  • Os frutos e vegetais têm propriedades que vão além da prevenção do cancro, estando associados a uma diminuição de problemas cardiovasculares, hipertensão e diabetes de tipo 2 .
  • As crucíferas e os allium destacam-se pelas suas propriedades anticancerígenas. Alguns conselhos para melhor beneficiarmos das propriedades anticancerígenas das crucíferas:
    • Mastigar bem as crucíferas de modo a esmagar todas as células e libertar a mirosinase.
    • Cortar, triturar ou reduzir a puré todas as crucíferas antes de as juntarmos aos cozinhados.
    • Cozer em vapor ou saltear durante muito pouco tempo, o suficiente para ficarem al dente.
    • Consumir o máximo possível estes vegetais em estado cru, como em saladas. A forma mais eficaz de o fazer é consumindo os seus germinados.
    • Os sumos de vegetais feitos em casa são também uma forma eficaz de se obterem os seus benefícios.
  • Os alhos precisam de ser igualmente esmagados ou picados antes de serem utilizados, de forma a obtermos algumas das suas substâncias ativas, como a alicina.

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