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As nossas sociedades modernas, com todos os seus avanços, trouxeram também vários desafios com implicações na saúde. Desde a emergência do Homo Sapiens há cerca de 250000 anos atrás e até muito recentemente na história, as populações eram fisicamente ativas desde a infância até idades avançadas. Os nossos organismos foram desenhados para se moverem. O século XX trouxe-nos através das comodidades físicas e modos de locomoção motorizados hábitos novos de sedentarismo. A falta de exercício físico é um forte contributo para algumas das doenças que mais atingem a nossa população. O cancro não é uma exceção.

AICR ExerciseDe acordo com o relatório Food, Nutrition, Physical Activity, and the Prevention of Cancer: a Global Perspective, existem evidências suficientes para se afirmar que uma atividade física regular pode prevenir vários cancros, tais como o cancro colo-retal, o da mama e do endométrio. De acordo com os dados disponíveis, as evidências de que o exercício físico protege contra o cancro colo-retal são as mais convincentes, seguidas do cancro da mama pós-menopausa e com menos consistência no caso do cancro da mama pré-menopausa. Existem evidências ainda limitadas de que poderá prevenir o cancro do pulmão e do pâncreas.

runEspecificamente em relação ao cancro da mama têm-se acumulado evidências suficientes para se sugerir que o exercício físico é benéfico tanto na prevenção como na sobrevivência após um diagnóstico, embora essa relação seja mais evidente no cancro da mama que surge após a menopausa. Uma revisão realizada em 2008 concluiu que a atividade física estava relacionada com uma diminuição de cerca de 25 a 30% no risco de cancro da mama. Outra revisão tinha chegado igualmente à conclusão que o risco combinado para os cancros mama pré e pós-menopausa diminuía cerca de 15 a 20% com uma atividade física regular, correspondendo a uma redução de risco de cerca de 6% por cada hora de atividade física semanal. No caso do cancro da mama pós-menopausa a diminuição de risco podia chegar aos 80%.

Os benefícios do exercício físico vão para lá da prevenção e contrariamente ao que muitas vezes se possa julgar, pode ter um papel importante após um diagnóstico de cancro da mama. O mais comum é haver uma diminuição de atividade depois de se detetar a doença o que pode contribuir para um agravamento da situação. Um estudo sugere que quando comparadas com mulheres que eram inativas antes e depois de um diagnóstico de cancro da mama, aquelas que aumentaram a atividade física após o diagnóstico tinham um risco 45% inferior de mortalidade e as mulheres que diminuíram a atividade física após o diagnóstico apresentaram um risco 4 vezes superior de mortalidade. De acordo com o Nurses’ Health Study, do qual fizeram parte mais de 2900 participantes, as mulheres que fizeram o equivalente a de 3 a 5 horas de exercício físico por semana (caminhada) apresentaram 50% menos probabilidades de morrer de cancro da mama. Foi também observado um risco inferior de recidiva de cancro da mama. Os mesmos resultados foram observados no The Collaborative Women’s Longevity Study (CWLS) do qual fizeram parte mais de 4400 mulheres com cancro da mama. Uma outra meta-análise de 6 estudos que incluem mais de 12000 muheres com cancro da mama conclui que fazer exercício físico após o diagnóstico reduz o risco de morrer da doença em 34% dentro de um período de 9 a 18 anos. Outro estudo observou que as mulheres que aumentaram ou mantiveram a atividade física após um diagnóstico de cancro da mama tiveram um risco 33% inferior de mortalidade mesmo que tenham sido inativas antes do diagnóstico. O estudo conclui dizendo que mulheres diagnosticadas com cancro da mama deveriam ser encorajadas a iniciar e manter um programa de atividade física.

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Mecanismos

Vários mecanismos podem ser responsáveis pelos benefícios do exercício físico na prevenção do cancro da mama, tais como o índice de massa corporal, efeitos no metabolismo das hormonas, diminuição da concentração das hormonas sexuais, aumento da função imunitária, níveis de insulina e de IGF-1.

  • Cancer_Estrogen_Research_35Excesso de peso. Não só o excesso de peso aumenta o risco de se ter cancro da mama, como aumenta a probabilidade de recidiva e morte de cancro de mama após o diagnóstico. Um estudo avaliou 7000 mulheres com cancro da mama a fazerem tratamento convencional. As mulheres obesas, com cancro da mama com recetor de estrogénio positivo, apresentavam 50% mais probabilidades de morte precoce quando comparadas com as mulheres com índices de massa corporal inferiores. Os autores sugerem que a explicação para isso passe pelo facto do excesso de gordura corporal estar associado a níveis superiores de insulina e inflamação, ambos associados ao cancro da mama com recetor de estrogénio postivo. Além disso o excesso de peso aumenta os níveis de estrogénio o que pode promover o crescimento do cancro da mama
  • Insulina. O exercício físico diminui os níveis de insulina no organismo. Níveis elevados desta hormona estão relacionados com uma diminuição na taxa de sobrevivência do cancro da mama.
  • IGF-1. Níveis elevados de insulina e de IGF-1 podem estar associados a um aumento de risco de cancro da mama. Estudos sugerem que o exercício físico diminui os níveis de IGF-1 no organismo.
  • Estrogénio. O exercício físico diminui os níveis de estrogénio no sangue, reduzindo assim o risco de cancro da mama.

Relativamente ao papel do exercício físico nos níveis de estrogénio, um estudo recente pode ajudar a explicar de que forma isso acontece e qual a sua relação com o risco de cancro da mama. Uma equipa de investigadores desenvolveu um estudo (Women in Steady Exercise Research) que envolveu 391 mulheres jovens, saudáveis e sedentárias. Dois grupos forma criados: um grupo consistiu em mulheres com um plano de exercícios com a duração de 30 minutos ao longo de 16 semanas. O segundo grupo permaneceu sedentário. Foram recolhidas amostras de urina no início e no fim do estudo. Os investigadores observaram que o exercício levou a um aumento de 2-hidroxistrona e a uma diminuição de 16-alfa-hidroxistrona, o que levou a um rácio superior do primeiro em relação ao segundo, não havendo alterações no grupo de controlo. O estradiol é metabolizado em dois compostos diferentes – o 16-alfa-hidroxistrona e o 2-hidroxistrona. Enquanto o primeiro tem uma ação estrogénica muito elevadaestimula a proliferação das células de cancro sensíveis à hormona, o segundo tem uma ação contrária, pelo que pensa-se que ao alterar a forma como o estrogénio é metabolizado no organismo se possa reduzir o risco de cancro da mama. O estudo conclui que estes resultados sugerem que alterações no metabolismo do estrogénio no período anterior à menopausa poderá ser um mecanismo pelo qual uma maior atividade física diminui o risco de cancro da mama.

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Algumas substâncias presentes nas crucíferas, tal como o indol-3-carbinol (I3C), têm um efeito semelhante no metabolismo do estrogénioEstudos mostram que o I3C aumenta produção de 2-hisdroxistrona e reduz a produção de 16-alfa-hidroxistrona, o que poderá diminuir o risco de cancro da mama de recetor de estrogénio positivo. Vários legumes crucíferos, como os brócolos e as couves de bruxelas são ricos em glucobrassicina, o glucosinolato precursor do indol-3-carbinol (I3C). Se quisermos realmente reduzir as probabilidades de vir a ter cancro da mama, ou de aumentar as probabilidades de sobrevivência após um diagnóstico, o melhor mesmo é conjugar um exercício físico regular com uma dieta saudável rica em crucíferas e outros alimentos quimiopreventivos.

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Referências:

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2017-10-24T16:43:16+00:00 0 Comments

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