As dietas hiperproteicas têm atraído muita atenção pelos seus alegados benefícios para a saúde. De facto, a curto prazo essas dietas poderão estar relacionadas com alguns benefícios no controlo do peso e na melhoria de alguns biomarcadores de risco como a glicemia ou a lipidemia .

No entanto, os efeitos a longo prazo para a saúde destes padrões alimentares não são inteiramente conhecidos e poderão mesmo estar associados a vários problemas de saúde e risco de mortalidade. Esse risco parece mesmo ser mais evidente quando se trata de proteína animal. Um novo estudo prospetivo (Rotterdam Study) que acompanhou 7786 participantes ao longo de 13 anos sugere que uma ingestão superior de proteína está associado a um risco superior de mortalidade. Alguns resultados do estudo:

  • Uma ingestão superior de proteína esteve associada a um risco 12% superior de mortalidade;
  • A relação com o risco de mortalidade é explicada maioritariamente pela ingestão superior de proteína animal (especialmente carne e produtos lácteos) e mortalidade por doença cardiovascular (28%);
  • Uma ingestão superior de proteína a partir de leguminosas, frutos secos, vegetais e frutos esteve associada a um risco inferior de mortalidade.

Uma meta-análise a 11 estudos prospetivos, incluindo o Rotterdam Study, que acompanhou 350452 participantes mostrou também uma relação entre a ingestão de proteína e o risco de mortalidade:

  • Uma ingestão superior de proteína animal esteve associada a um risco superior de mortalidade, especialmente por doença cardiovascular;
  • Uma ingestão superior de proteína vegetal esteve associada um risco inferior de mortalidade (7%), especialmente de mortalidade por doença cardiovascular (14%).

O estudo concluiu que os estudos prospetivos publicados até hoje sugerem que a ingestão superior de proteína está associada a um risco superior de mortalidade, explicada maioritariamente pelos efeitos da proteína animal no risco de doença cardiovascular. Por outro lado, a ingestão de proteína vegetal está associada a um risco inferior de mortalidade total e por doença cardiovascular .

Essa associação pode em parte ser explicada pela presença de aminoácidos de cadeia ramificada e aromáticos, assim como outros componentes presentes na proteína animal como gorduras saturadas, carnitina ou contaminantes como aminas heterocíclicas. A proteína animal é muito rica em aminoácidos ramificados e aromáticos, os quais podem promover resistência à insulina e excesso de peso ao estimularem a via de mTOR .

Esses aminoácidos, como a leucina, promovem também a formação de placa de aterosclerose ao estimularem a via metabólica mTOR dos macrófagos, inibindo a autofagia mitocondrial (mitofagia), o que leva a uma grande quantidade de macrófagos mortos no ateroma, tornando-o extremamente instável e com tendência à rutura .

O mTOR funciona como um regulador central do crescimento e proliferação celular e quando estimulado, promove o crescimento celular e inibe a capacidade da células reciclar componentes danificados (autofagia). O mTOR é ativado na presença de glicose, energia, fatores de crescimento e aminoácidos, em especial a leucina. A leucina existe em quantidades particularmente altas em alimentos de origem animal como as carnes ou os produtos lácteos e baixas em alimentos vegetais como cereais integrais, o que pode explicar em parte porque dietas ricas em proteína animal, especialmente carnes vermelhas, poderão aumentar o risco de doença cardiovascular.

Estudos anteriores reforçam a relação entre excesso de proteína, especialmente animal, e o risco de mortalidade. Um estudo prospetivo de grandes dimensões que acompanhou 131342 participantes ao longo de 32 anos, concluiu que comer mais proteína vegetal está associado a um risco inferior de mortalidade (10%) e comer mais proteína animal está associado a um risco superior de mortalidade (8%), especialmente entre adultos com pelo menos um comportamento pouco saudável, como fumar, beber álcool ou ser sedentário .

Um estudo prospetivo que acompanhou 43396 mulheres ao longo de 15 anos, mostrou que aquelas que fizeram uma dieta rica em proteína e pobre em hidratos de carbono tiveram um risco superior de doença cardiovascular 

Outro estudo procurou identificar fontes específicas de proteína animal e vegetal e a sua relação com o risco de mortalidade por doença cardiovascular, tendo concluído que o consumo elevado de proteína a partir de carne esteve associado a um risco 61% superior de mortalidade por doença cardiovascular e que o consumo elevado de proteína a partir de frutos secos e sementes esteve associado a um risco 40% inferior de mortalidade por doença cardiovascular .

Além disso, não só um rácio superior de proteína animal relativamente a proteína vegetal e consumo elevado de carne poderá estar associado a um risco superior de mortalidade, como esse risco parece ser mais evidente entre aqueles que têm uma doença crónica .

Além disso, um estudo prospetivo que acompanhou 6381 participantes ao longo de 18 anos mostrou que aqueles que fizeram uma dieta mais rica em proteína animal, mas não vegetal, tiveram um risco 4 vezes superior de mortalidade por cancro e 74% de mortalidade total .

Uma meta-análise a 36 estudos clínicos aleatorizados mostrou que substituir carne vermelha por proteínas vegetais de qualidade (mas não peixe ou hidratos de carbono de pouca qualidade), levou a alterações favoráveis nos valores de colesterol e triglicéridos. Os autores do estudo recomendam maior adesão a dietas vegetarianas ou mediterrânica pelos seus benefícios para a saúde mas também por serem mais sustentáveis .

Por outro lado, dietas de base vegetal parecem diminuir o risco de doenças cardiovasculares. Uma revisão sistemática e meta-análise a 86 estudos seccionais e 10 estudos prospetivos mostrou que uma dieta vegetariana esteve associada a um risco 25% inferior de cardiopatia isquémica e um risco 8% inferior de cancro, tendo concluído que aqueles que seguem uma dieta vegetariana ou vegana têm menor peso, menos colesterol e níveis de glicose no sangue, quando comparado com dietas omnívoras .

Dois importantes estudos prospetivos mostraram também que o risco de doenças cardiovasculares foi 32% inferior entre vegetarianos e veganos (EPIC) e que foi 42% inferior entre os homens veganos e 23% inferior entre os homens vegetarianos (AHS-2) .

Um estudo que incluiu 11576 participantes sugere que dietas com níveis elevados de metionina e cisteína possam aumentar o risco de doenças cardiometabólicas. De acordo com os resultados, aqueles que fizeram uma ingestão superior de aminoácidos sulfurados como metionina e cisteína tiveram um aumento dos níveis de fatores de risco de doenças cardiometabólicas, tais como colesterol, triglicéridos, proteína C-reativa, ácido úrico, glicose, insulina e hemoglobina glicada.

O estudo mostrou também que na população estudada dos EUA, a ingestão de MET e CIS é cerca de 2,5 vezes superior da necessidade média necessária, dando-nos conta também que dietas pobres em aminoácidos sulfurados têm maior quantidade de proteína de origem vegetal do que animal. Por outras palavras, dietas de base vegetal são naturalmente baixas em MET e CIS .

Sendo um dos nutrientes essenciais, a ingestão de referência populacional (PRI) de MET e CIS são de 12,2 mg/kg/dia no caso da metionina e 6,6 mg/kg/dia no caso da cisteína. O aminoácido metionina encontra-se naturalmente presente em grandes concentrações em alimentos de origem animal como: peixe, galinha, porco, queijo, peru, carne vermelha, ovos, entre outros. Por outro lado, uma dieta de base vegetal, especialmente no caso das veganas, é naturalmente baixa em metionina .

A proteína, embora seja composta essencialmente por aminoácidos essenciais para a saúde, tem concentrações diferentes desses aminoácidos em fontes animais ou vegetais, os quais têm efeitos para a saúde e mortalidade. A proteína vegetal, além de ter quantidades inferiores de aminoácidos associados a problemas de saúde, é acompanhada de fibra e outros componentes fundamentais na prevenção de doenças crónicas.

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