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Sabemos atualmente que pelo menos 20% de cancros na mulher e 14% no homem estão relacionados com a obesidade. A obesidade é responsável por 28% de todos os casos de cancro do pâncreas e 49% dos cancros do endométrio na mulher. Os mecanismos pelos quais o excesso de gordura corporal promove o cancro não são inteiramente conhecidos mas conhecem-se já alguns. Contrariamente ao que se poderia pensar, as células adiposas compõem um tecido que está longe de ser inerte. Na realidade, este comporta-se como um tecido vivo, produzindo uma série de hormonas com implicações significativas no metabolismo. Estimulam a secreção de insulina ao aumentar os níveis de açúcar no sangue. Quando em excesso a insulina promove a proliferação das células, nomeadamente as de cancro. Além disso, esse aumento dos níveis de insulina no sangue é acompanhado pela produção de uma outra hormona produzida no fígado, a IGF-1, que é também um poderoso fator de promoção de crescimento do cancro. As hormonas sexuais são também estimuladas a níveis superiores por estas células adiposas, o que por si representa um risco acrescido em cancros hormono-dependentes. A isto tudo acrescenta-se o facto de aumentarem os níveis de inflamação no organismo, outra das condições necessárias ao cancro. O microambiente orgânico torna-se assim o mais favorável possível ao desenvolvimento de doenças crónicas graves.

mcdc7_belly_fatA gordura não é distribuída de forma igual no organismo. Acumula-se tanto debaixo da pele como à volta dos orgãos (gordura visceral ou intra-abdominal). Esta última é a que mais está relacionada com o risco de várias doenças, nomeadamente diabetes, doenças cardiovasculares e cancro. A gordura visceral é mais ativa metabolicamente do que a gordura periférica subcutânea, produzindo uma série de substâncias e citoquinas que levam a um estado pró-inflamatório e de resistência à insulina conhecido como síndrome metabólico. Os efeitos sistémicos produzidos pela gordura visceral estão envolvidos na biologia do cancro. A medida da cintura abdominal é utilizada como um indicador de risco.

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As assinaturas do cancro e o possível papel da obesidade visceral na carcinogénese.

Um estudo recente publicado no Cancer Prevention Research, uma revista da American Association for Cancer Research (AACR), mostrou haver uma relação direta entre a gordura visceral e o cancro colo-retal em modelo animal. De acordo com Derek Huffman, um dos autores do estudo, “embora outros fatores relacionados com o estilo de vida tenham importância, este estudo mostra de forma inequívoca que a adiposidade visceral está de forma causal relacionada com o cancro colo-retal“.

Em animais com características diferentes modificadas por cirurgia, aqueles que têm mais gordura visceral desenvolveram o maior número de tumores intestinais e tiveram a pior taxa de sobrevivência. Os animais com menos gordura visceral, quer através de remoção cirurgica quer por restrição calórica, apresentaram menor número de tumores intestinais. Esta relação foi particularmente notável no caso do grupo onde a gordura visceral tinha sido removida cirurgicamente, porque estes animais eram na mesma obesos mas com muito pouca gordura abdominal.

Os investigadores concluíram que nos animais fêmea, a remoção da gordura visceral estava de forma significativa relacionada com uma redução nos tumores intestinais mas não a restrição calórica. Por outro lado, nos animais machos, a restrição calórica teve um efeito significativo nos tumores intestinais mas não a remoção da gordura visceral. De acordo com Huffman “isto sugere que existem importantes diferenças de género na forma como a adiposidade e os nutrientes interagem com o ambiente do tumor. Além disso, o estudo enfatiza a necessidade de se promoverem estratégias para reduzir a gordura visceral em pessoas com obesidade abdominal”.

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Os autores do estudo alertam para o facto de serem necessários mais estudos para se perceber melhor os mecanismos por detrás da relação causal entre a gordura visceral e o cancro colo-retal.

ObesityCancerChartO cancro colo-retal representa o terceiro tipo de cancro mais comum no mundo inteiro, embora exista uma incidência muito inferior em países menos desenvolvidos, aumenta muito com a industrialização e urbanização. Neste momento, devido ao progressivo desenvolvimento destes países, os casos estão a aumentar. Ainda assim, continua a ser relativamente incomum em África e grande parte da Ásia. É uma doença fatal em perto de metade dos casos, sendo a 4ª causa de morte mais comum de cancro. De uma maneira geral, de acordo com as evidências disponíveis, os especialistas consideram que a dieta tem um papel fundamental na prevenção e causa deste tipo de cancro. No atual estado de conhecimento, o consumo de carnes vermelhas e processadas está de forma convincente relacionado com um aumento de risco de cancro colo-retal. De acordo com a estimativa do maior relatório desenvolvido sobre a relação entre nutrição e cancro, caso se reduzisse o consumo de carnes vermelhas e processadas e se consumisse mais alimentos ricos em fibras, cerca de 50% de casos de cancro colo-retal poderiam ser evitados.

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Referências:

http://www.aacr.org/home/public–media/aacr-in-the-news.aspx?d=3029

http://cancerpreventionresearch.aacrjournals.org/content/6/3/161.abstract

http://openi.nlm.nih.gov/detailedresult.php?img=3145556_1758-5996-3-12-1&req=4

http://www.dietandcancerreport.org/cup/current_progress/colorectal_cancer.php

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/downloads/chapters/chapter_07.pdf

 

 

2017-10-24T16:43:20+00:00 1 Comment

One Comment

  1. joaquim gomes ribeiro 2 Abril, 2013 at 17:03 - Reply

    concordo que as carnes vermelhas fazem mal e os fritos

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