A dieta ocidental é caracterizada por incluir quantidades em excesso de sal e outros componentes, os quais são considerados proinflamatórios .

Pensa-se que uma dieta rica em sal possa ser proinflamatória e estimular a resposta imunitária, especialmente na pele, sendo esta o órgão que armazena sódio no organismo . A acumulação de sal na pele resultante de uma dieta rica em sal, reforça a defesa dos macrófagos contra a infeção cutânea leishmaniose.

Por outras palavras, as infeções por esses parasitas em animais são mais rapidamente curadas se estes fizerem uma dieta rica em sal, uma vez que os macrófagos ficam particularmente ativos na presença desse sal . Esses efeitos levaram a que fosse proposto que o gradiente intrarrenal de sódio pudesse melhorar a defesa local contra infeções bacterianas ao atrair macrófagos .

No entanto, um novo estudo sugere que uma dieta rica em sal não só é proinflamatória como poderá ter efeitos imunossupressores que comprometem a defesa contra infeções bacterianas. No estudo em modelo animal, os animais com inflamação renal por infeção bacteriana (pielonefrite) que fizeram uma dieta rica em sal, tiveram uma maior progressão da infeção, comparativamente com uma dieta normal .

Esses efeitos imunossupressores do sal são possivelmente explicados por dois mecanismos:

  1. Numa dieta rica em em sal, o excesso de sódio tem de ser eliminado, aumentando assim a concentração de ureia nos rins, a qual inibe a ação antibacteriana dos neutrófilos;
  2. Para os rins eliminarem o excesso de sódio, aumentam os níveis no organismo das hormonas glicocorticóides, as quais inibem o funcionamento dos neutrófilos.

Estes resultados sugerem por isso que uma dieta rica em sal prejudica o funcionamento dos neutrófilos localmente, assim como de forma sistémica através do aumento dos glicocorticóides.

Para confirmar estes resultados, em voluntários humanos que durante uma semana fizeram uma dieta rica em sal observou-se igualmente um aumento de glicocorticóides e a função antibacteriana dos neutrófilos diminuída. A quantidade de sal ingerida foram 6 gramas por dia, o que corresponde aproximadamente a duas refeições de fast-food.

Este estudo sugere assim que um dieta rica em sal possa aumentar o risco ou severidade de infeção bacteriana do trato urinário ou outros órgãos que não acumulam sal. No caso de uma infeção urinária, talvez seja por isso desaconselhado ingerir grandes quantidades de sal.

Além dos seus efeitos indiretos sobre os neutrófilos, o sal poderá afetar o equilíbrio da microbiota. Em modelo animal, uma ingestão elevada de sal levou a uma diminuição de Lactobacillus murinus e a um aumento de Linfócitos Th17. Níveis elevados de linfócitos T auxiliares Th17 poderão aumentar o risco de doenças autoimunes como a esclerose múltipla, assim como contribuir para hipertensão .

Relativamente às infeções urinárias, dietas de base vegetal poderão ser protetoras e reduzir o risco. Um estudo procurou perceber se uma dieta vegetariana poderia estar associada a um risco inferior de infeção urinária. Para isso foram acompanhados 9724 participantes budistas ao longo de 10 anos. De acordo com os resultados, uma dieta vegetariana esteve associada a uma diminuição de 16% no risco de infeção urinária, especialmente no caso das mulheres e de não fumadores .

Além de os vegetarianos terem menos contacto com as estirpes de E. coli causadoras de infeções urinárias, a microbiota de vegetarianos e veganos tem menos concentração de bactérias patogénicas como E. coli e Enterobacteriaceae spp. Por outro lado os fitoquímicos presentes nos vegetais têm propriedades antibacterianas, além de anti-inflamatórias e antioxidantes. Um fruto em particular, o arando, é conhecido pelas sua propriedades protetoras contras as infeções urinárias ao reduzir a capacidade de aderência das bactérias às células uroepiteliais .

De acordo com alguns estudos clínicos, 240-300 ml de sumo de arando ou extrato concentrado de arando (600-1200 mg) poderá ser eficaz a prevenir recidivas de IU . Outra planta que poderá ter propriedades protetoras contra a infeção urinária é o hibisco .

No entanto, nem todos os estudos mostram efeitos protetores dos arandos na prevenção de IU. Alguns desses estudos sugerem que estes frutos poderão não ter uma concentração suficiente dos princípios ativos responsáveis pelas suas propriedades para serem efetivos na prevenção ou tratamento da doença . Ainda assim, uma revisão a 13 estudos clínicos aleatorizados sugere que o sumo de arando foi eficaz a diminuir 38% o risco de IU .

Em resumo: excesso de sal poderá aumentar o risco de infeções bacterianas ao interferir com o bom funcionamento do sistema imunitário. Por outro lado, dietas de base vegetal poderão proteger contra infeções urinárias.

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