A fragilidade que acompanha o envelhecimento envolve a degradação de vários sistemas fisiológicos e uma persistente ativação da resposta inflamatória imunitária inata. A fragilidade pode incluir o desenvolvimento de inflamação de baixo grau, perda da função cognitiva, sarcopenia e doenças crónicas como diabetes e aterosclerose.

Modificações de estilo de vida, como a adoção de uma dieta mediterrânica têm sido sugeridas como uma estratégia terapêutica para lidar com a fragilidade. Sendo a dieta mediterrânica caracterizada pelo aumento da ingestão de vegetais, leguminosas, fruta, frutos secos, azeite e peixe, acompanhada de uma ingestão baixa de carne vermelha, produtos lácteos e gorduras saturadas, esta está associada a diminuição da mortalidade, diminuição do risco de várias doenças e menor inflamação .

Uma maior adesão à dieta mediterrânica está também associada a alterações benéficas na microbiota, com diminuição na quantidade de bactérias prejudiciais e aumento de outras benéficas e correspondente aumento de produção de ácidos gordos de cadeia curta como o butirato .

O estudo NU-AGE procurou identificar os efeitos de uma dieta mediterrânica personalizada durante 12 meses em mais de 1200 participantes com mais de 65 anos. Trata-se de um estudo clínico aleatorizado, multicêntrico a partir de 5 diferentes países.

A partir de uma análise de 612 participantes, a adesão a uma dieta mediterrânica esteve positivamente associada a vários marcadores associados a menor fragilidade e melhorias na função cognitiva. Por outro lado, esteve associada a uma redução nos marcadores inflamatórios, incluindo a proteína C-reativa e a interleucina-17.

Além disso, a dieta mediterrânica esteve associada a alterações favoráveis na microbiota, tais como um aumento da produção de ácidos gordos de cadeia curta e menor produção de ácidos biliares secundários, p-cresóis, etanol e dióxido de carbono.

O estudo concluiu que alterar a dieta para um padrão saudável, como a dieta mediterrânica, tem o potencial de modular a microbiota e por conseguinte de promover um envelhecimento mais saudável .

A adesão a dietas de base vegetal, como a mediterrânica ou vegetariana, promove o crescimento de bactérias produtoras de ácidos gordos de cadeia curta e inibe o crescimento de outras associadas a ácidos biliares secundários e metabolitos prejudiciais.

Um estudo anterior mostrou também que, no contexto de uma dieta mediterrânica ou vegetariana, um aumento na ingestão de hidratos de carbono de qualidade esteve associado a níveis superiores de butirato. Por outro lado, uma ingestão elevada de gorduras esteve associada a níveis inferiores de ácidos gordos de cadeia curta como o propionato ou acetato .

Alimentos ricos em fibras e amido resistente são os principais alimentos de bactérias benéficas e protetoras do nosso intestino. Ao fermentarem essas fibras e amidos, certas bactérias produzem substâncias como o butirato ou o acetato, as quais têm inúmeros benefícios para a saúde.

O butirato é a principal fonte de energia das células do intestino e está associado a inúmeros benefícios para a saúde :

– Diminui a inflamação;

– Reforça a barreira intestinal;

– Diminui a permeabilidade intestinal;

– Reforça as junções apertadas das células do intestino;

– Aumenta a formação de mucosa intestinal;

– Aumenta o número de linfócitos T reguladores;

– Diminui o pH do intestino.

Por outro lado, dietas ricas em gordura costumam ser pobres em fibra, além de poderem afetar a permeabilidade intestinal por meio da secreção de mediadores, o que favorece a translocação de endotoxinas (lipopolissacarídeos) para a circulação .

A microbiota intestinal representa um grande reservatório de endotoxinas, especialmente naqueles indivíduos que habitualmente consomem dietas com alto teor de gorduras. Essas endotixinas induzem inflamação e resistência à insulina. Altas concentrações circulantes de endotoxinas, associadas à ingestão de dietas ricas em gorduras, podem desencadear inflamação subclínica crónica, que participa na génese da obesidade, DM2 e outras .

Além disso, uma alimentação rica em gordura estimula a secreção de ácidos biliares, os quais são convertidos em ácidos biliares secundários na microbiota. Ao funcionarem como surfactantes, os ácidos biliares secundários quando presentes em concentrações elevadas podem romper a camada lipídica das membranas celulares do tecido epitelial.

O fígado humano sintetiza 2 ácidos biliares, ácido cólico e ácido quenodesoxicólico, os quais são convertidos em ácidos biliares secundários pelas bactérias do intestino. Dietas ricas em gorduras saturadas e pobres em fibra resultam em quantidades superiores de ácidos biliares secundários no cólon, os quais são tóxicos e associados a um risco superior de cancro colorretal e outros problemas gastrointestinais .

Uma revisão sistemática a 6 RCTs e 9 estudos seccionais-cruzados mostrou que uma dieta rica em gordura (especialmente saturadas) está associada a uma diminuição do número, riqueza e diversidade de bactérias no intestino. Esteve também associada a um aumento das bactérias Clostridium bolteae e Blautia, as quais poderão aumentar o risco de resistência à insulina e obesidade. As gorduras poli-insaturadas não pareceram afetar negativamente a microbiota .

Precisamos lembrar que a fibra é um hidrato de carbono. Por isso, dizermos que fazemos uma dieta com poucos hidratos de carbono pode induzir em erro, quando o que devemos é reduzir os alimentos com farinhas refinadas ou açúcares livres e não os vegetais ou cereais integrais.

Uma das melhores fontes de butirato e acetato por fermentação bacteriana no intestino é o amido resistente. O amido resistente é um tipo de amido que resiste à digestão e é fermentado pela microbiota no intestino. Encontra-se presente em certos vegetais e frutos amiláceos, leguminosas, cereais integrais e frutos secos, tais como:

– Banana verde;
– Mandioca;
– Feijão branco;
– Feijão vermelho;
– Flocos de aveia crus;
– Lentilhas vermelhas;
– Caju;
– Feijão preto;
– Lentilhas.

Em resumo, dietas de base vegetal, como a dieta mediterrânica, podem contribuir para uma melhor composição da microbiota, o que pode diminuir os efeitos da fragilidade associada ao envelhecimento.

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